Há uma cena que se repete nas padarias brasileiras desde o início deste ano de 2026, e ela resume a decadência de uma nação inteira com a precisão de um bisturi. O freguês pede o pão, o café, a manteiga, e na hora de pagar descobre uma novidade anunciada com pompa pelo noticiário econômico, o Pix Parcelado, agora universalizado e integrado ao ecossistema bancário com taxas que, somadas, superam tranquilamente os trezentos por cento ao ano. O sujeito sorri, acha aquilo o máximo da inovação tecnológica, e não percebe que acaba de contrair uma dívida de agiota para comer pão com manteiga. A festa é grande, o aplicativo é bonito, e o endividamento das famílias brasileiras bateu recorde histórico em março, ultrapassando a casa dos setenta e oito por cento segundo dados da própria confederação do comércio. O povo não está sendo roubado, está pagando para ser roubado, e ainda agradece pela praticidade.

O detalhe que ninguém menciona nos telejornais, evidentemente, é que o tal Pix, vendido em 2020 como instrumento de soberania monetária e democratização financeira, nasceu justamente para destruir os custos operacionais dos bancos privados sem lhes tirar um centavo de margem. O cidadão comum acreditou que estava recebendo um presente do Banco Central. Os acionistas dos grandes bancos, esses sim, sabiam perfeitamente que estavam recebendo uma infraestrutura estatal gratuita para reduzir custos de processamento e, simultaneamente, vender crédito pulverizado em cada transação cotidiana. É o sonho de qualquer usurário desde a Babilônia: cobrar juros sobre o pão nosso de cada dia, com a bênção do soberano.

Siga o dinheiro e o desenho da armadilha aparece inteiro. Os cinco maiores bancos do país lucraram, em 2025, algo perto de cento e cinquenta bilhões de reais, superando pela primeira vez o total de investimentos federais em saúde e educação básica somados. Enquanto isso, a Selic permanece cravada em quinze por cento, sustentada sob o pretexto de conter uma inflação que o próprio governo alimenta com gastança eleitoreira travestida de política social. Há uma simbiose perversa entre o Tesouro, que precisa rolar sua dívida impagável pagando juros siderais, e o cartel bancário, que empresta para o governo enquanto sufoca o setor produtivo com spreads obscenos. O contribuinte paga os dois lados da mesa. É o único convidado que nunca come nada no banquete.

Essa engenharia não é acidente, e aqui é preciso ter o estômago para olhar a coisa nos olhos. Quando um império antigo decidiu financiar suas guerras pedindo empréstimos aos banqueiros florentinos, o destino foi inevitável, o soberano começou como cliente, tornou se refém, e terminou como fantoche. O Brasil de 2026 já cumpriu as duas primeiras etapas e corre alegremente em direção à terceira. A diferença é que, no passado, pelo menos havia guerras sendo travadas. Hoje o endividamento financia apenas o conforto dos parasitas que orbitam Brasília, os auxílios comprados a voto, os supersalários do funcionalismo, e aquela massa crescente de consultorias fantasmagóricas que apareceram nos relatórios do TCU no último trimestre.

O mais fascinante, do ponto de vista patológico, é observar como a imprensa econômica trata tudo isso. Os mesmos articulistas que em 2015 pediam austeridade fiscal com histeria religiosa agora defendem, com a mesma veemência, a expansão do arcabouço fiscal porque o governo atual lhes agrada ideologicamente. Os bancos patrocinam os cadernos de economia, as universidades recebem doações dos mesmos conglomerados, e os economistas de cátedra publicam artigos explicando, com gráficos coloridos, que o brasileiro médio precisa aprender educação financeira. Traduzindo, a culpa do empobrecimento é sua, que ousou comprar um pão parcelado em três vezes. O usurário é virtuoso, o faminto é imprudente.

Há ainda uma camada cultural mais funda, que explica por que a plebe aceita o espetáculo sem protestar. Uma sociedade que perdeu o senso daquilo que distingue o uso legítimo do dinheiro da sua função parasitária, uma sociedade que confundiu crédito com renda, consumo com prosperidade, e que foi educada por trinta anos de novelas a considerar o cartão de crédito um símbolo de ascensão social, essa sociedade está psicologicamente preparada para ser ordenhada até a última gota. O antigo filósofo que dizia haver algo de profundamente contranatural em dinheiro que pare dinheiro sozinho hoje seria cancelado nas redes por falta de inclusão financeira. Chamaríamos de atrasado um homem que, há dois mil e quatrocentos anos, já tinha percebido o que os PhDs da Faria Lima fingem não enxergar.

Enquanto isso, no Planalto, discute se a próxima rodada de isenção de imposto de renda, que na prática é financiada pela emissão de títulos públicos comprados pelos mesmos bancos que cobram trezentos por cento no Pix Parcelado. É o circuito fechado perfeito. O governo dá um trocado com a mão esquerda, toma de volta com juros compostos pela mão direita, e o eleitor agradece nas duas pontas. Em maio teremos nova reunião do Copom, em junho novo pacote de crédito consignado ampliado, em julho novo recorde de endividamento familiar, e assim seguiremos rodando a roda dos mortos até que alguém tenha a coragem histórica de perguntar, finalmente, quem está de fato pagando esta festa e quem está de fato bebendo o champanhe.

O Brasil não está quebrando, senhores, o Brasil foi quebrado em câmera lenta e com aplausos da vítima, e o único crime verdadeiramente inédito desta década é termos transformado a servidão voluntária num aplicativo de celular com interface amigável.

A análise e opinião são do O Algoz.