O Proagro estourou a conta em 2023 e agora vem a notícia de que o programa sofreu alterações, retirando coberturas. Leia com calma: um programa federal criado para garantir a atividade agropecuária gastou tanto dinheiro público que o próprio governo decidiu reduzir sua abrangência. Perceba a ironia fina da coisa. O Estado cria um mecanismo de socialização de perdas, alimenta esse mecanismo por décadas com recursos do Tesouro, e quando a criatura fica grande demais para o criador, a solução não é extinguir o programa, é apenas podar alguns galhos para que a árvore parasitária continue de pé, só que um pouco menor. A pergunta que deveria abrir qualquer reportagem sobre o assunto é elementar: quem paga essa conta? Não é o produtor. Não é o banco. É o sujeito que nunca pisou numa lavoura, que paga seus impostos em dia e que sequer sabe que parte do seu suor financia o risco alheio.
O mecanismo é antigo e elegante na sua perversidade. O produtor rural contrata uma operação de crédito, embute o Proagro como um adicional, e se a safra vai mal, quem cobre o rombo é o governo federal, com recursos que saem do Banco Central. Em linguagem direta: o lucro é privado, o prejuízo é público. Funciona como uma espécie de seguro onde o segurado escolhe o risco e o pagador não tem escolha nenhuma. Qualquer dono de boteco entende que esse arranjo é insustentável. Se eu pudesse apostar no jóquei sabendo que, se o cavalo perdesse, a vizinhança cobriria minha aposta, eu apostaria todos os dias, em todos os cavalos, sem o menor critério. É exatamente isso que o Proagro incentiva: a tomada de risco sem consequência, o mais potente destruidor de responsabilidade individual que um burocrata já inventou.
Existe um mercado privado de seguros agrícolas no Brasil. Funciona. Precifica risco. Cobra mais caro de quem planta em área arriscada e mais barato de quem adota tecnologia e boas práticas. Em outras palavras, faz exatamente o que um sistema racional deveria fazer: distribui custos conforme o risco real. Mas o Proagro distorce esse mercado de maneira brutal. Por que um produtor pagaria um seguro privado pelo preço justo se o governo oferece cobertura subsidiada? O programa estatal não complementa o mercado; ele o sufoca. Cada real que o Tesouro despeja no Proagro é um real que impede o desenvolvimento de um mercado segurador maduro, competitivo e, sobretudo, honesto, porque quem paga é quem se beneficia.
As alterações feitas após 2023 são o tipo de reforma que o Estado adora fazer: muda a embalagem para preservar o conteúdo. Retira uma cobertura aqui, ajusta um percentual ali, e apresenta o resultado como responsabilidade fiscal. É o velho truque do ilusionista que mostra a mão direita enquanto a esquerda continua dentro do bolso do contribuinte. A estrutura permanece intacta. O fluxo de dinheiro continua. Os beneficiários de sempre, os grandes tomadores de crédito rural que dominam a fila do programa, seguem protegidos. E o pequeno produtor, aquele que o discurso oficial jura proteger, continua na ponta de baixo, recebendo migalhas de um sistema desenhado para quem já tem acesso a Brasília.
O agronegócio brasileiro é extraordinário. Alimenta o país e meio mundo. Mas essa competência fenomenal torna ainda mais obscena a dependência de programas como o Proagro. Se o setor mais produtivo da economia precisa de muleta estatal para cobrir seus riscos, o que sobra para os demais? A resposta é simples e incômoda: não precisa. Quem precisa é a máquina política que usa o programa como moeda de troca, como ferramenta de clientelismo rural, como justificativa para manter escritórios, cargos e comissões. O Proagro não existe para proteger o agricultor. Existe para proteger o arranjo. E enquanto a televisão exibir programas simpáticos sobre a força do agro sem perguntar quem de fato financia essa força, o espectador continuará pagando a conta sem sequer saber que ela existe.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.