O produtor rural brasileiro acorda às quatro da manhã, enfrenta sol, chuva, câmbio, burocracia, e no fim do mês descobre que uma fatia generosa do que ele produziu foi parar numa estrutura sindical que ele não pediu para existir. O Senar, braço educacional do sistema que a Faesp comanda em São Paulo, se apresenta na Agrishow 2026 como se fosse um benfeitor espontâneo do campo. Estará lá, em Ribeirão Preto, entre 27 de abril e 1º de maio, com estande, programação, presença institucional lustrosa. O que o folheto não diz é que a conta já foi paga antes mesmo de o portão abrir, e quem pagou foi o próprio produtor, via contribuição sindical compulsória que escorre da folha de pagamento rural direto para os cofres dessas entidades. Ninguém escolheu esse arranjo. Ele simplesmente existe, blindado por decreto, alimentado por lei, e qualquer tentativa de questioná-lo é recebida com aquele olhar ofendido de quem vive de dinheiro alheio e acha que está fazendo caridade.

A Agrishow, convém lembrar, é a maior feira de tecnologia agrícola da América Latina. O agronegócio que sustenta o PIB brasileiro, que banca superávit comercial, que segura a balança de pagamentos quando o resto da economia resolve imitar república de bananas, esse agronegócio não precisa de tutela sindical para existir. Ele existe apesar dela. O produtor que compra uma colheitadeira de dois milhões de reais não precisa que o Senar lhe ensine como plantar. Mas o sistema precisa do produtor, porque sem ele não há contribuição, e sem contribuição não há estrutura, e sem estrutura não há cargos, diárias, eventos, e aquela classe especial de burocratas que faz carreira administrando o dinheiro dos outros com a solenidade de quem administra o próprio.

Enquanto isso, o programa A Força do Agro vai ao ar de segunda a sexta, pontualmente às 19h50, com a jornalista Joice Maffezzolli na apresentação e na chefia de redação. É um programa que fala do agro para o agro, o que seria perfeitamente legítimo se não funcionasse, na prática, como vitrine institucional de um sistema que precisa de propaganda permanente para justificar sua existência. A lógica é circular e perfeita na sua impenetrabilidade: o dinheiro compulsório financia a estrutura, a estrutura financia a comunicação, a comunicação celebra a estrutura, e o produtor que paga tudo isso assiste de casa achando que está vendo jornalismo. É o mesmo mecanismo que faz o contribuinte aplaudir obra pública feita com o próprio dinheiro, como se o governo fosse um benfeitor e não um intermediário que cobra comissão.

O problema nunca foi o agro. O problema é o parasitismo institucional que se acopla ao agro. A Faesp representa o produtor da mesma forma que o sindicato representa o trabalhador: em tese, no papel, no discurso. Na prática, representa a si mesma e aos seus. É uma estrutura que consome recursos, gera empregos para os seus quadros, ocupa espaço político, e devolve ao produtor uma fração minúscula do que extraiu, embalada em cursos, palestras e estandes bonitos em feiras como a Agrishow. O produtor eficiente, o que realmente move o país, faz isso com tecnologia que ele mesmo comprou, crédito que ele mesmo contratou e risco que ele mesmo assumiu. A entidade sindical patronal entra depois, pega carona no sucesso alheio e se apresenta como co-autora da prosperidade.

A pergunta que nenhum programa de televisão do setor vai fazer, porque morder a mão que alimenta não é especialidade de assessoria de imprensa travestida de redação, é simples: se a contribuição ao sistema S fosse voluntária, quantos produtores continuariam pagando? A resposta é tão óbvia que dispensa pesquisa. E é exatamente por isso que ela nunca será voluntária. O arranjo sobrevive porque é compulsório, e é compulsório porque não sobreviveria de outra forma. Toda estrutura que precisa de coerção legal para existir já confessou, pelo próprio mecanismo de sua sustentação, que não entrega valor suficiente para que alguém pague por ela de livre vontade. O agro brasileiro é forte apesar do sistema que o parasita, não por causa dele. Mas isso, claro, você não vai ouvir às 19h50.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.