O noticiário do agronegócio abre os trabalhos com uma peça exemplar de propaganda: depois de dois anos de quebras de safra, o azeite nacional entra em 2026 sob o signo do otimismo. Produção que cresce, garrafas que se multiplicam, jornalistas que sorriem ao microfone. Falta apenas a fanfarra e os fogos de artifício. Quem assiste de longe imagina que o milagre é obra exclusiva da chuva na hora certa e do sol na medida. Quem conhece o arranjo sabe que milagre, em terra tropical com oliveira de clima mediterrâneo, costuma vir acompanhado de alíquota, linha de crédito subsidiado e tarifa de importação vestida de protetora da economia nacional.

Vamos ao fato concreto antes que o entusiasmo contagie. Azeite é cultura milenar de encostas secas, invernos frios e verões duros. Portugal faz desde antes do Brasil existir, Espanha despeja oceanos do produto no mundo todo, Itália vive disso há séculos. O Brasil descobriu a oliveira outro dia, e cada litro produzido aqui custa o que custa um jantar razoável na Vila Madalena. A pergunta óbvia, a que nenhum repórter educado faz, é simples: se o produto importado chega mais barato e com qualidade equivalente ou superior, por que celebrar que o nacional aumente a fatia? A resposta está no lugar onde sempre esteve, no bolso alheio, no seu bolso mais precisamente.

Siga a trilha dos centavos e o quadro se desenha sozinho. Existe imposto de importação sobre azeite que entra no país. Existe linha de financiamento de banco público para o produtor rural plantar, colher, processar e engarrafar. Existe renúncia fiscal estadual para atrair agroindústria. Existe propaganda oficial disfarçada de jornalismo que repete, todo santo dia no horário nobre do agro, que comprar nacional é patriotismo. O freguês que paga vinte e tantos reais a mais na prateleira não está subsidiando apenas o sítio bucólico da serra gaúcha. Está bancando um arranjo inteiro de privilégio, no qual três ou quatro produtores bem relacionados capturam política pública enquanto milhões de consumidores arcam com o sobrepreço sem saber que o fazem.

O truque é velho como a arte de governar. No tempo em que as cortes europeias proibiam tecido estrangeiro para proteger seus fabricantes favoritos, o súdito pagava mais caro e vestia pior, enquanto o cortesão metido a industrial engordava. Troca o tecido pelo azeite, troca o cortesão pelo lobista de Brasília, e a engenharia é idêntica. A diferença é que hoje a coisa vem embrulhada em palavra bonita: soberania alimentar, valorização do produtor, desenvolvimento regional. Toda vez que um político invoca soberania para cobrar mais pelo que você consome, pode conferir, tem gente específica embolsando. Não existe taxa que beneficie abstração. Beneficia CNPJ, endereço, conta bancária.

E reparem na estrutura lógica do discurso oficial, que não sobrevive a cinco minutos de escrutínio. Diz-se que o aumento de produção nacional reduz dependência externa. Mas dependência do quê, exatamente, se o mercado global de azeite é dos mais líquidos e diversificados do planeta, com dezenas de países vendendo? Diz-se que gera emprego. Mas qualquer atividade gera emprego, inclusive quebrar vidraça para chamar o vidraceiro, e nem por isso organizamos política pública para estimular vandalismo. O emprego criado artificialmente custa sempre mais do que o emprego destruído no setor que perdeu renda para pagar o subsídio. Só que o destruído some das estatísticas, e o criado aparece sorrindo na reportagem das sete e cinquenta.

Fica a regra que nenhum programa de agronegócio vai ensinar ao telespectador, porque contraria o contrato tácito entre imprensa do setor e seus patrocinadores: toda vez que você ouvir celebração sobre safra recorde, produção em alta ou conquista de mercado, pergunte quem está pagando para que essa festa aconteça. Se a resposta for o mercado livre, brinde junto. Se a resposta for o consumidor capturado por tarifa, o contribuinte espremido por subsídio ou o cidadão enganado por propaganda travestida de notícia, guarde o champanhe. Você não foi convidado para o banquete. Você é o prato principal.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.