O programa estreou mais um capítulo nesta sexta-feira, número setecentos e vinte e dois da contagem, e a cena se repete com a regularidade de um relógio suíço. O agro brasileiro, esse organismo teimoso que insiste em produzir apesar do clima, do dólar, da logística capenga e, sobretudo, do Estado brasileiro, continua sendo apresentado como milagre. Milagre coisa nenhuma. É trabalho, capital de risco e gente acordando às cinco da manhã para pagar uma estrutura burocrática que, a cada safra, inventa novo imposto, nova exigência, novo carimbo, nova taxa de fiscalização que fiscaliza outra fiscalização.

Pergunte a qualquer produtor do cerrado quanto dos grãos embarcados em Paranaguá ou Santos fica pelo caminho em forma de tributo, logística estatal sabotada e crédito carregado de juros que só existem porque o governo gasta mais do que arrecada. A resposta é sempre a mesma, e ela não cabe num gráfico bonito de telejornal. O agro não precisa do Estado para existir; o Estado é que precisa do agro para sobreviver. Inverteram a equação, puseram a carroça na frente dos bois, e depois chamam a própria carroça de conquista civilizatória.

Há um truque antigo aqui, tão antigo quanto os impérios que cobravam dízimo em grão. Primeiro, o poder central sabota a atividade produtiva com regulação, carga tributária e incerteza jurídica. Depois, quando o produtor, contra todas as probabilidades, consegue colher e vender, o mesmo poder central chega ao palanque anunciando que foi graças a um programa de incentivo, a uma linha de crédito subsidiada, a um acordo comercial assinado em viagem oficial com comitiva de centenas. O ladrão entra pela janela, sai pela porta da frente e ainda pede aplausos. Funciona assim há dois mil anos, com roupa diferente.

Siga o dinheiro, sempre. O subsídio rural que aparece nas manchetes como bondade governamental não cai do céu; sai do bolso do próprio produtor em forma de imposto, retorna em versão reduzida, travestido de favor, e no meio do caminho alimenta uma legião de intermediários, consultores, funcionários de carreira e escritórios de advocacia especializados em decifrar o Frankenstein tributário que eles mesmos ajudaram a criar. O beneficiário final não é quem está no trator. É quem está no ar condicionado, carimbando papel e vivendo do papel carimbado.

E então chega o programa diário, pontual, competente, mostrando a cara do Brasil que funciona. Ótimo que mostre. O país precisa ver quem realmente carrega o piano. Só que falta completar a frase. O agro é forte não por causa do Estado, mas apesar dele. Toda vez que um apresentador anuncia a safra recorde, deveria aparecer, no canto da tela, a conta de quanto dessa safra foi embora em tributos, frete inflacionado por infraestrutura deficitária e juros bancários distorcidos pela farra fiscal de Brasília. Seria jornalismo de verdade. Seria informação completa. Seria, provavelmente, material demais para o horário nobre suportar.

No fim, a pergunta que importa é uma só, e ela não muda nunca, seja no episódio setecentos e vinte e dois, seja no milésimo. Quem paga, quem recebe? Paga o sujeito que arrisca patrimônio, saúde e sono plantando num país que trata o sucesso privado como pecado a ser expiado em forma de alíquota. Recebe a estrutura parasitária que transformou o ato de produzir em privilégio a ser autorizado pelo burocrata de plantão. O rei continua nu, passeando na avenida com coroa de imposto na cabeça, e alguém tem que apontar o óbvio antes que a propaganda convença mais uma geração de que é preciso agradecer ao alfaiate invisível.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.