Toda noite, pontualmente às 19h50, uma apresentadora bem iluminada anuncia ao Brasil que o agro é tech, é pop, é tudo. O episódio 732 chega à tela com a naturalidade de quem já entendeu o jogo, intercalando boletins de safra com curiosidades nutricionais sobre o cálcio, suas funções nos ossos, na transmissão nervosa, na coagulação sanguínea. Parece inocente. Não é. Nenhum programa diário, em horário nobre, sobrevive sete temporadas porque o público adora aprender sobre eletrólitos. Sobrevive porque alguém paga a conta, e quem paga sempre quer alguma coisa em troca.

A primeira pergunta que o telespectador deveria fazer, antes de se emocionar com o drone sobrevoando o pivô central, é simples: de onde vem o dinheiro que sustenta esse jornalismo solene? Não é caridade. Não é ofício cívico. É um arranjo no qual entidades patronais, federações, cooperativas e fornecedores de insumos compram, direta ou indiretamente, a narrativa de que o setor é o sustentáculo da pátria, vítima eterna de pragas, climas, juros, ambientalistas urbanos e impostos injustos. Tudo isso pode até ser verdade em parte, mas a parte que some da tela é justamente a interessante: os bilhões em crédito subsidiado, o perdão recorrente de dívidas, a renegociação que vira lei, a desoneração que vira regra, o seguro rural pago com tributo de quem nunca viu uma vaca de perto.

É aqui que o silogismo se monta sozinho, sem precisar de muito esforço. Se um setor é tão eficiente, produtivo e competitivo quanto a vinheta promete, então deveria prescindir de socorro estatal. Se, ao mesmo tempo, depende de Plano Safra, de subvenção, de equalização de juros, de moratórias periódicas, então a vinheta mente, ou a eficiência é seletiva, válida para o marketing e curiosamente ausente na hora de pagar a conta. As duas coisas não se sustentam juntas. Ou o agro é o gigante autossuficiente da propaganda, ou é o paciente crônico do orçamento público. Escolham, senhores produtores de jingle, escolham.

O detalhe sobre o cálcio, jogado ali quase como intervalo educativo, não é acidente de pauta. É a pedagogia silenciosa do programa: você precisa de leite, precisa de queijo, precisa de carne, precisa de soja fortificada, e por extensão precisa que o setor que produz tudo isso receba carinho fiscal, proteção tarifária e silêncio crítico. Ninguém vai ao ar lembrar que parte considerável do preço do quilo de carne na gôndola embute tributo, frete encarecido por estrada que o pagador de imposto bancou e nunca viu pavimentada, e margem de intermediário que existe porque o varejo concentrado é amigo de quem legisla. O telespectador sai grato. Era esse o objetivo.

A confusão entre informar e bajular tem nome antigo. Chamava-se, na corte, gazeta oficial; chamava-se, depois, boletim do partido; chama-se, hoje, conteúdo segmentado de alta credibilidade. Muda a roupa, não muda a função: alinhar o público com os interesses de quem financia a produção da matéria. Não há crime nisso, há apenas opacidade, e a opacidade é a matéria-prima de todo arranjo que não resistiria a cinco minutos de luz. Por isso a coluna se repete, à exaustão, na mesma pergunta de sempre: quem paga, quem recebe, e quem fica com a conta quando a festa acaba? No caso do programa das 19h50, paga o anunciante setorial, recebe o produtor médio e grande organizado em lobby, e a conta, como de praxe, fica com o contribuinte que assistiu a tudo achando que estava aprendendo sobre ossos.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.