Existe, no planeta, uma ilha cuja atmosfera é literalmente letal, e o detalhe mais saboroso da história não está na geologia nem na química do ar envenenado, está no fato de que ninguém precisou publicar portaria, criar secretaria, contratar fiscal ou imprimir cartilha para manter os humanos do lado de fora. O gás sobe do solo, corrói o pulmão em minutos, e pronto, o problema se resolve sem reunião interministerial, sem grupo de trabalho, sem comitê gestor. A natureza, quando decide proibir, proíbe de verdade. O Estado, quando decide proibir, invariavelmente cobra uma taxa para liberar a exceção.

Repare na elegância do contraste. Para impedir que se construa uma casa no próprio quintal, a burocracia brasileira mobiliza dezenas de servidores, cobra ITBI, IPTU, outorga, licenciamento ambiental, habite-se, alvará, e ainda assim o cidadão dá um jeitinho e ergue o muro. Para impedir que alguém desembarque na tal ilha, basta o vento. Um resolve com violência institucional e papel carimbado; o outro resolve com física, química e a velha e boa realidade. Os antigos diziam que a natureza das coisas não se curva ao decreto, e quem insiste em curvá la acaba, no fim, curvado por ela.

A tentação obviamente é imediata: em qualquer lugar do mundo onde exista uma curiosidade geográfica perigosa, surge o especialista reivindicando orçamento para estudar, o guarda florestal pleiteando cargo comissionado, o consultor vendendo relatório de impacto, o político prometendo turismo controlado mediante concessão. O perigo vira ativo, o ativo vira renda, a renda vira dependência, e a dependência vira eleitorado cativo. Onde a morte é gratuita, o intermediário jamais deixa de tentar cobrar pedágio para olhar de longe. Pergunte se quem arrecada a taxa é o mesmo que corre o risco. Nunca é.

Há algo profundamente instrutivo nisso tudo, e o incômodo é proporcional ao desconforto de reconhecer. Se a proibição real, a que funciona, é a que se impõe por consequência concreta, então a maior parte das proibições humanas que vivemos engolindo todos os dias não passa de teatro remunerado. Proíbe se por proibir, taxa se por taxar, regula se por regular, e no fim o gás continua subindo ou não subindo independentemente do que o ofício número tal do protocolo tal determinou. O silogismo é brutal em sua simplicidade: se a consequência natural já resolve, o decreto sobra; se o decreto sobra, ele serve a outra coisa que não ao bem público anunciado.

A analogia com o nosso cotidiano quase se escreve sozinha. O cidadão atravessa meio país para pagar imposto sobre imposto, tarifa sobre tarifa, licença sobre licença, e no fim descobre que a rua continua esburacada, o hospital continua sem médico, a escola continua sem professor. A ilha envenenada ao menos é honesta: mata sem cobrar. O Estado moderno aperfeiçoou a técnica inversa, cobra sem entregar, e ainda convence a vítima de que está sendo protegida do próprio ar que respira. Quem paga é sempre o mesmo camarada de sempre, com contracheque na mão e fé ingênua no coração. Quem recebe tem assessor, carro oficial e aposentadoria especial.

Talvez a moral da pequena ilha esteja justamente em lembrar que a liberdade verdadeira não precisa de guardiões fardados para existir, e que a ausência de Estado, nos lugares onde a natureza impõe limites reais, não gera caos, gera respeito. O homem aprende, recua, contorna, e segue vivendo. Bastaria meia dúzia de ministérios a menos e meia dúzia de realidades a mais para o país lembrar que não é o carimbo que governa o mundo, é a consequência. Pergunte, sempre, quem paga e quem recebe. No caso da ilha, a resposta é limpa: paga quem desrespeita, recebe a terra o silêncio de volta. No caso do Brasil, melhor nem abrir a planilha.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.