Dez a um. O placar é de 11 de setembro de 1983, Pacaembu, Corinthians contra Tiradentes do Piauí, e segue intacto como a maior goleada da história do Campeonato Brasileiro. A façanha não veio acompanhada de coletiva pedindo isenção fiscal, nem de manifesto chorando por verba pública, nem de campanha pelas redes implorando que o Estado salvasse o clube quebrado. O time entrou, jogou, marcou dez, foi para casa. O futebol, naquela tarde, ainda era um jogo. Hoje virou outra coisa: uma engrenagem barulhenta de transferência de renda do contribuinte para cartola, com bola rolando no meio só para disfarçar a operação.

Quem olha para aquele 10 a 1 e sente nostalgia talvez não saiba exatamente do que sente saudade. Não é da grama mais alta nem do uniforme de algodão. É de uma época em que goleada era mérito esportivo, derrota era responsabilidade do derrotado, e clube falido falia. O Tiradentes voltou para casa humilhado e ninguém em Brasília montou um pacote de socorro emergencial para clubes do Nordeste. O Corinthians venceu por dez e ninguém exigiu cota redistributiva para nivelar resultados em nome da justiça regional. As coisas eram o que eram, e o placar dizia o que dizia, sem comissão de notáveis para reinterpretar a realidade.

Compare com o presente. O futebol brasileiro contemporâneo é um cadáver maquiado que se sustenta em três muletas, todas custeadas por quem não pisa em estádio: perdão recorrente de dívidas tributárias travestido de Profut, isenção sobre patrocínios via leis de incentivo que transformam dinheiro de imposto em camisa de jogador, e contratos de transmissão em que estatais e empresas reguladas aparecem como garantidoras involuntárias do espetáculo. O torcedor acha que paga ingresso e assinatura. Paga isso e mais o resto, no boleto da luz, no preço do combustível, na alíquota que some do contracheque antes mesmo de o salário cair.

A goleada de 1983 funciona como espelho impiedoso. Naquele modelo, o clube pequeno que apanhava de dez tinha um destino claro: melhorar, fundir, ou desaparecer. Era cruel? Era. Era também honesto. A crueldade do mercado é menos cruel que a falsa misericórdia do subsídio, porque a primeira ensina e a segunda perpetua. O time que sobrevive de socorro estatal não aprende a se administrar, não corta gastos, não despede o dirigente incompetente. Apenas espera o próximo refinanciamento, a próxima medida provisória, o próximo deputado disposto a trocar uma emenda por uma cadeira cativa no camarote. O incentivo que não dói não corrige nada, apenas adia o desastre e cobra juros.

Há quem diga que futebol é cultura, é identidade, é patrimônio do povo, e portanto merece tratamento especial. Argumento curioso, sempre apresentado por quem ganha dinheiro com o tratamento especial. Padaria também é cultura, oficina mecânica também é identidade, barbearia de bairro também é patrimônio, e nenhuma delas tem ministério próprio nem perdão de tributo a cada ciclo eleitoral. A diferença é simples e impublicável: padeiro não janta com senador, mecânico não financia campanha, barbeiro não enche estádio com eleitor pintado de verde e amarelo. Quando alguém grita que algo é essencial demais para falir, traduza por reflexo: alguém poderoso demais ficaria sem mesada.

O 10 a 1 do Pacaembu permanece, portanto, mais que um recorde estatístico. É um fóssil de uma era em que o jogo tinha vencedor e perdedor, em que o placar não passava por revisão ideológica, em que o clube ruim era ruim e ponto final. Conserve a memória daquela tarde como se conserva foto antiga de cidade antes da reforma desastrada: serve para lembrar que existiu, um dia, futebol sem pires na mão. Quem paga a festa de hoje é quem nunca foi convidado para a mesa. Quem recebe são os mesmos de sempre, com terno melhor e discurso mais empolado. O resto é narração.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.