Existe uma fotografia que vale mais que mil discursos do Partido Comunista Chinês, a da Barragem das Três Gargantas represando o Yangtzé com tanta massa de água acumulada num único ponto da crosta terrestre que a NASA mediu, calculou e confirmou, o eixo do planeta se deslocou e o dia ficou alguns microssegundos mais longo. Leia de novo, com calma. Um governo concentrou tanto concreto, tanta água e tanto poder num único ponto geográfico que o próprio movimento da Terra precisou se acomodar. E ainda existe quem ache que o Estado é uma instituição modesta, limitada, simpática, que só quer cuidar das criancinhas e cobrar um imposto aqui e outro ali para manter as ruas limpas.
A pergunta que ninguém faz, porque a imprensa oficial chinesa não tolera curiosidade e a imprensa ocidental adora uma obra faraônica desde que pintada de verde, é a velha pergunta de sempre, quem pagou e quem recebeu. Pagaram, em primeiro lugar, mais de um milhão e trezentas mil pessoas arrancadas de suas casas pela ponta da baioneta burocrática, aldeias inteiras submersas, cemitérios afogados, templos milenares dinamitados, gente realocada em conjuntos habitacionais de concreto cinza com a mesma delicadeza com que se transfere gado de um curral para outro. Pagaram os peixes que sumiram, o golfinho do Yangtzé que foi extinto no processo, os sedimentos que não chegam mais ao delta e que fazem a costa chinesa recuar metro a metro todo ano. E pagaram, claro, os contribuintes chineses, que financiaram durante quase duas décadas a obra mais cara da história humana sem direito a opinar, votar ou sequer reclamar em voz alta sem receber visita.
Receberam, como sempre, os de sempre. As empreiteiras estatais que faturaram contratos do tamanho de pequenos países. Os burocratas do Partido que viraram bilionários discretos com participações cruzadas em fornecedores de turbinas, cimento, aço e cabos de alta tensão. Os generais que conseguiram um trunfo geopolítico monumental, porque quem controla a água do Yangtzé controla a agricultura, a indústria e a sobrevivência de meio bilhão de pessoas rio abaixo. E receberam, sobretudo, os arautos da grandiosidade, esses sacerdotes modernos que precisam de catedrais de concreto para justificar a própria existência. O faraó construía pirâmide, o czar construía palácio, o ditador moderno constrói hidrelétrica. Muda o material, não muda a vaidade.
O argumento oficial é sempre o mesmo, energia limpa, desenvolvimento, soberania, combate às enchentes. Repare na engenharia retórica, é impecável. Cada palavra é um anestésico. Quem é contra energia limpa? Quem é contra desenvolvimento? Ora, se você é contra a barragem, então é a favor do carvão, do atraso, da fome. A falsa dicotomia é o instrumento favorito de quem precisa silenciar a pergunta inconveniente, que neste caso seria, por que essa decisão coube a um comitê fechado de gente que nunca morou às margens do Yangtzé, nunca perdeu o cemitério dos avós, nunca viu o próprio quintal virar fundo de lago? A resposta, claro, é que liberdade individual e propriedade privada são luxos burgueses que atrapalham o progresso coletivo, e quando o coletivo se reúne para decidir pelo indivíduo, o indivíduo sempre sai com menos casa, menos terra e mais discurso.
Há uma ironia geológica deliciosa em tudo isso. O regime que se autoproclama dono do futuro, da história e da verdade científica, conseguiu de fato um feito científico mensurável, atrasou o relógio do planeta. Não é metáfora, é física newtoniana de manual escolar, momento de inércia, conservação do momento angular, distribuição de massa em relação ao eixo de rotação. Concentre água suficiente longe do equador e o planeta gira um tiquinho mais devagar. O Estado chinês literalmente freou a Terra. E o que se ouve dos comentaristas progressistas do ocidente? Aplausos pela ousadia, admiração pela escala, inveja pelo planejamento centralizado. Se um empresário privado tivesse feito metade disso, estaria preso, processado e crucificado em editorial de domingo. Como foi o Estado, é visionário.
Fica a lição, que não é nova mas precisa ser repetida porque cada geração tenta esquecê-la, todo poder concentrado tende a megalomania, e toda megalomania cobra a conta de quem não pode pagar. O sujeito que represa um rio termina represando gente, e o governo que se acha capaz de redesenhar a geografia se acha, no dia seguinte, capaz de redesenhar a alma humana. Da próxima vez que algum tecnocrata bem barbeado vier explicar que o projeto dele é grande demais para falhar, lembre dos microssegundos roubados do dia, do milhão de famílias arrancadas do chão e do golfinho que não existe mais. A escala da obra é proporcional apenas à arrogância de quem a encomendou, e a história, essa velha senhora paciente, sempre acaba devolvendo a conta com juros.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.