A engenhoca da vez se chama luz de freio adaptativa, acoplada ao freio de emergência automático, e passa a ser obrigatória nos carros novos vendidos na União Europeia a partir de julho. A justificativa, como sempre, vem embrulhada no celofane mais nobre que o vocabulário do poder consegue produzir: salvar vidas, reduzir colisões traseiras, aumentar a percepção de risco. Quem, afinal, ousaria ser contra salvar vidas? É justamente esse o truque. Toda imposição estatal contemporânea vem precedida de uma virtude tão inquestionável que discutir o método vira sinônimo de defender o vício. E é aí, exatamente nesse ponto, que mora o gato.

Pergunte-se o óbvio, aquilo que os jornais polidos jamais perguntam: quem ganha dinheiro com essa norma? Não é o motorista, que vai pagar mais caro pelo carro. Não é o pedestre, que continua atravessando faixa apagada na mesma rua esburacada. Quem ganha são os fornecedores de tier 1, aqueles oligopólios alemães e franceses que produzem sensores, módulos eletrônicos e firmware proprietário. Quem ganha são as montadoras grandes, que já tinham a tecnologia pronta na prateleira e agora veem os concorrentes menores, os fabricantes baratos, os importados turcos e chineses, terem que se adequar ou sumir do mercado. Regulação técnica nunca é neutra. Ela é, quase sempre, a barreira de entrada vestida de jaleco branco.

O padrão é antigo e repete a mesma coreografia desde que o mundo é mundo. Primeiro vem o problema real, frenagens bruscas, batidas traseiras, mortes nas estradas. Depois vem o lobby, discreto, paciente, financiando estudos, patrocinando seminários, infiltrando especialistas em comissões técnicas. Por fim vem a norma, redigida com tal precisão que coincidentemente atende às especificações dos componentes que apenas três ou quatro empresas no continente fabricam. O cidadão comum lê a manchete e pensa que ganhou um presente. Ganhou, sim, mas é boleto. A diferença entre uma esmola e um imposto é que a esmola você pode recusar.

Há ainda a perversidade mais sutil, aquela que escapa ao debate raso. Cada camada nova de eletrônica embarcada significa um carro mais caro de comprar, mais caro de manter, mais caro de consertar e mais difícil de reparar fora da rede oficial. O mecânico de bairro morre, o aplicativo proprietário nasce. O motorista perde autonomia sobre o próprio bem, vira inquilino daquilo que jurava ser seu. E quando o módulo pifa aos sete anos de uso, o veículo inteiro vai para o ferro velho antes da hora. Sustentabilidade, dizem. Obsolescência programada com selo verde, traduzo eu.

O argumento da segurança, quando examinado com a frieza devida, sempre prova demais. Se o critério é salvar vidas a qualquer custo, por que parar na luz adaptativa? Por que não impor limite eletrônico de oitenta por hora em todo veículo, álcool zero por sensor obrigatório, GPS conectado à autoridade fiscalizadora em tempo real? A resposta é que o burocrata avança até onde o protesto silencia, e recua quando o cidadão acorda. Toda liberdade perdida começa com uma medida pequena, técnica, razoável, em nome de um bem indiscutível. O sapo não sente a água esquentando porque a temperatura sobe um grau de cada vez, e cada grau vem assinado por uma comissão de notáveis.

No fim, a pergunta volta intacta ao ponto de partida. Quem paga? O consumidor, sempre o consumidor, esse personagem mudo do teatro regulatório, que financia o espetáculo sem direito a opinar sobre o roteiro. Quem recebe? O cartel industrial protegido, o lobista que cobrou caro pela emenda, o político que posa de salvador da pátria com dinheiro alheio, e o burocrata europeu que justifica o próprio salário inventando trabalho para si mesmo. A luzinha vai piscar nas traseiras de toda a Europa a partir de julho. E em cada pisca, um pequeno aplauso silencioso à mais antiga das profissões legalizadas: vender proteção contra um perigo que você mesmo ajudou a regular.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.