Existe um momento, geralmente entre os sessenta e os setenta, em que o sujeito senta na varanda, olha o telefone e percebe que não toca há três semanas. Não porque ninguém goste dele, mas porque ninguém precisa mais dele para nada. O chefe não liga porque ele não assina mais cheque, o colega não liga porque não dividem mais o cafezinho, o vizinho não bate na porta porque mudou de bairro, e os amigos do clube sumiram quando o joelho parou de aguentar a quadra. A constatação é brutal e silenciosa, e tem o peso de uma sentença sem direito a recurso: a maior parte do que ele chamou de afeto durante quarenta anos era logística.

O fato concreto é esse, e merece ser olhado de frente, sem o anestésico das frases motivacionais que enchem rede social de velho aposentado fingindo que está tudo bem. As relações humanas funcionam, na esmagadora maioria dos casos, pela mesma lógica que move um mercado de feira: troca, proximidade, conveniência mútua. Você convive com fulano porque mora ao lado, trabalha com beltrano porque paga as contas, frequenta sicrano porque o filho estuda na mesma escola. Tire a proximidade, tire a rotina, tire a obrigação institucional, e o que resta é o número real de pessoas que escolheriam estar com você num sábado chuvoso sem nenhuma razão prática. Esse número costuma caber numa mão, e geralmente sobra dedo.

A descoberta é desagradável porque desmonta uma narrativa que o sujeito vendeu para si mesmo a vida inteira. Ele acreditou que era querido, popular, central, parte de uma teia generosa de afetos. Era central, sim, enquanto cumpria função. O rei medieval era cercado de cortesãos enquanto distribuía terras; quando perdia o trono, descobria que os cortesãos não amavam o homem, amavam o trono. A psicologia da velhice apenas democratiza essa descoberta antiga: todo mundo, no fim, vira rei deposto, e a corte some na mesma velocidade com que sumia das antecâmaras de Versalhes quando o monarca caía em desgraça. Não há nada de novo nisso, há apenas a falta de coragem coletiva de admitir.

O ponto incômodo, o que ninguém quer escrever, é que essa lógica não é defeito da espécie, é a regra. Convivência sustentada por rotina não é falsidade, é economia de energia. O ser humano não tem combustível afetivo para amar profundamente cinquenta pessoas, e quem afirma o contrário está mentindo ou vendendo curso de coaching. O que existe são círculos concêntricos, e o círculo verdadeiramente íntimo, aquele que resiste à ausência de proximidade física e de obrigação social, é minúsculo por definição biológica e prática. Fingir o contrário enquanto se é jovem custa pouco; descobrir o contrário quando se é velho custa o resto da vida emocional.

A lição, se há alguma, é que vale a pena fazer essa contabilidade aos quarenta, não aos setenta, quando ainda há tempo de investir nas três ou quatro relações que sobreviveriam ao desaparecimento da rotina. O resto, o exército de conhecidos, colegas, contatos profissionais e amigos de circunstância, é exatamente o que parece: um arranjo funcional, útil enquanto dura, que não merece nem a expectativa de eternidade nem o luto pela inevitável dissolução. Tratar conhecido como amigo íntimo é o equivalente afetivo de confundir cortesia com promessa. A velhice apenas cobra a fatura dessa confusão, com juros compostos.

Quem paga essa conta é o velho que acreditou na multidão. Quem recebe o lucro emocional é quem, ainda jovem, teve a frieza de separar o joio do trigo, investiu pouco em muita gente e muito em pouca gente, e chega aos setenta com uma agenda telefônica curta mas com três nomes que atendem na primeira chamada. Não é pessimismo, é aritmética. E aritmética, ao contrário de promessa de amizade eterna, sempre fecha.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.