Existe uma gaveta, na cozinha de quase toda casa, que não fecha direito porque está abarrotada de papel velho. Cartão de Dia dos Pais com glitter caindo, boletim do segundo ano com bilhete da professora, impressão de mãozinha em tinta guache que já nem se sabe de qual filho era. O sujeito que insiste em manter aquele caos não é nenhum sentimentalóide pateta, como gostam de pintar os colunistas de revista feminina. Ele está fazendo uma coisa muito mais grave e muito mais bonita: está provando para si mesmo que os anos efetivamente aconteceram, que aquela criança existiu, que ele esteve lá, ainda que o corpo dele estivesse, na maior parte dos dias, ocupado pagando boleto e engolindo chefe.
Pense bem no que aquela gaveta representa. Enquanto o cidadão é catalogado em CPF, CNH, título de eleitor, cadastro do SUS, declaração de imposto de renda, ficha do RH, prontuário médico, score de crédito e mais uma dezena de fichários eletrônicos onde ele figura como número, a única coisa que efetivamente registra que ele foi pai, que houve uma criança rindo de uma piada idiota dele numa terça à noite, é um pedaço de sulfite com lápis de cera. Nenhum órgão público guarda isso. Nenhum algoritmo lucra com isso. Nenhuma plataforma vende isso de volta para ele em forma de anúncio segmentado. Por isso aquilo sobrevive: porque ninguém ainda descobriu como monetizar a memória pura.
O ponto é simples e dói. O homem moderno trabalha em média um terço do ano só para pagar tributo, e o restante para pagar moradia, transporte, mensalidade escolar e plano de saúde, todos esses encarecidos artificialmente por regulação, cartelização e impressão de moeda. Resultado: ele entrega o corpo dez, doze, quatorze horas por dia para uma engrenagem que devolve, em troca, contracheque e cansaço. Os dias se atropelam. A criança cresce de janela. Quando o sujeito olha para trás, parece que assistiu à própria paternidade pela fresta de uma porta. A gaveta entulhada é a tentativa desesperada e legítima de reconstruir, em pedacinhos de papel, a vida que o sistema cobrou em forma de tempo.
Há aqui uma lógica implacável que ninguém quer enunciar. Se a vida de um homem é gasta em produzir riqueza que escorre para terceiros via confisco, e se o tempo dele com os filhos é o subproduto residual desse arranjo, então cada bilhete amassado naquela gaveta é prova material de um furto que nenhum tribunal vai julgar. Não é poesia, é contabilidade. O Estado leva o dinheiro, o emprego leva as horas, e sobra a mãozinha em guache. Guardar aquilo é o ato silencioso de quem se recusa a aceitar que a vida inteira coube num holerite.
É curioso notar como a alma popular sempre soube disso, mesmo sem teorizar. Camponês medieval guardava lascas de cabelo do filho dentro de relicário de madeira. Imigrante italiano no porão do navio levava medalhinha de batismo costurada na barra do casaco. Vó nordestina escondia retrato dos netos dentro da Bíblia. Sempre houve, entre gente comum, esse instinto de criar um arquivo paralelo, fora do alcance do escrivão, do recenseador, do fiscal. A gaveta da cozinha é a versão suburbana e contemporânea daquele relicário. É o museu particular do que não foi confiscado.
Por isso, quando aparecer algum entusiasta da organização para convencer o sujeito a digitalizar tudo na nuvem, jogar fora o original e liberar espaço, convém desconfiar. Toda vez que alguém propõe transferir uma lembrança para servidor alheio, está propondo, no fundo, transformá-la em ativo de terceiro. A gaveta que emperra é antiga, é tosca, é desorganizada, e é exatamente por isso que ainda é dele. Quem paga aquele arquivo? O pai, com tempo roubado. Quem recebe? Apenas ele mesmo, anos depois, quando precisar provar a si próprio que esteve vivo enquanto o mundo cobrava a passagem.
Com informações do O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.