Repare na cena, porque ela é reveladora. Numa sala de reunião qualquer, dez executivos encaram seus laptops abertos como quem reza diante de um altar de silício, dedilhando teclas com a devoção de monges copistas, e um sujeito qualquer, no canto, abre um caderno surrado e saca uma caneta. Os olhares se viram, há um sorrisinho condescendente, talvez uma piada sobre dinossauros. Pois bem, o dinossauro, descobre-se agora, é justamente quem está prestando atenção. Os outros estão respondendo e-mail, conferindo cotação, ou fingindo que tomam nota enquanto na verdade já esqueceram o que foi dito três minutos atrás.
A psicologia, essa ciência que de vez em quando acerta um chute, vem confirmando o que qualquer professor antigo já sabia antes de a palavra neurociência existir: escrever à mão obriga o cérebro a sintetizar, hierarquizar, decidir o que importa e o que é ruído. O teclado é estenográfico, transcreve sem pensar, e o resultado é uma cópia morta. A caneta é seletiva, exige juízo, e juízo é exatamente aquilo que o mundo digital combate com método. Quem escreve à mão entende o que ouve. Quem digita compulsivamente apenas registra que esteve presente, como crachá de ponto eletrônico.
Convém perguntar quem ganha com a substituição maciça do papel pelo aplicativo. A resposta não exige curso de detetive. Ganha a fabricante do tablet, ganha a desenvolvedora do software de produtividade que cobra mensalidade vitalícia, ganha a consultoria que vende transformação digital a peso de ouro, ganha a empresa de dados que monetiza cada anotação sua transformada em metadado vendável. A caneta, esse objeto pavoroso, tem um pecado original: ela é sua, custa três reais, dura uma década e não pede atualização de firmware. Nenhum império se constrói sobre algo tão honesto.
Há ainda o aspecto político da coisa, e aqui o caldo engrossa. Um povo treinado a delegar a memória para a nuvem é um povo que não controla mais a própria cabeça. O que está no caderno é seu, ninguém suspende, ninguém deleta, ninguém condiciona ao cumprimento de termos de serviço redigidos em letrinha miúda por advogados californianos. O que está na nuvem é alugado, e quem aluga obedece. A história está cheia de regimes que entenderam isso muito bem e queimaram bibliotecas, proibiram diários, vigiaram cartas. Hoje não precisam mais queimar nada, basta convencer o cidadão a entregar voluntariamente as próprias anotações em troca de sincronização automática entre dispositivos.
O sujeito que anota à mão, portanto, não é um saudosista pitoresco a ser tolerado entre risadinhas. Ele é alguém que ainda exerce três coisas hoje raras: atenção plena, propriedade intelectual sobre o próprio pensamento e desconfiança saudável dos atalhos vendidos como progresso. A capacidade de análise dele é maior porque o instrumento exige análise, e quem usa instrumento exigente acaba ficando à altura dele. Já o cérebro terceirizado para o algoritmo vai murchando devagar, como músculo que parou de carregar peso, até o dia em que o sujeito não consegue mais lembrar o aniversário da própria mãe sem consultar o calendário sincronizado.
O recado, no fim, é simples e impopular. A modernidade não tem o monopólio da inteligência, e muita coisa vendida como retrógrada sobrevive justamente porque funciona. A caneta resistiu a séculos de imprensa, de máquina de escrever, de computador pessoal e agora da inteligência artificial. Vai resistir também a esta safra, porque pensar continua sendo um ato individual, lento e silencioso, e nenhum aplicativo jamais conseguiu replicar o ruído sagrado do bico do bic arranhando o papel enquanto uma ideia toma forma. Quem ri do caderninho do colega ria por último, que costuma ria menos.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.