Décadas de sermão moralista despejado em cima de quem dorme tarde, e agora aparecem estudos com dezenas de milhares de cérebros submetidos ao escrutínio para informar, com a frieza dos números, que o notívago tende a pontuar mais alto em testes de inteligência e criatividade. O preguiçoso da fábula, aquele que a vovó condenava entre um pãozinho e outro, é justamente o sujeito cujo córtex pré-frontal continua trabalhando enquanto o resto do quarteirão ronca em uníssono. A piada, como quase sempre, estava do lado contrário do que o coro repetia.
Convém perguntar de onde vem essa moral matinal que tomou conta do imaginário ocidental como se fosse lei da física. Não vem da natureza, vem da chaminé. O culto ao despertador nasceu no século dezoito, quando o tear mecânico exigiu corpos sincronizados ao apito da fábrica, e ganhou musculatura no século dezenove, quando os patrões precisaram convencer o operário de que acordar antes do sol era virtude, e não imposição contratual disfarçada de caráter. A propaganda foi tão eficiente que até hoje se confunde madrugar com retidão, como se Deus assinasse ponto às seis em ponto.
O cérebro noturno, esse heterodoxo, opera num regime que o diurno desconhece. Sem a enxurrada de estímulos sociais, sem a tirania do email respondido em tempo real, sem o ruído do consenso, a mente entra naquele estado que os artistas chamam de fluxo e os psicólogos chamam de cognição divergente. É de noite que se escreve poesia decente, é de noite que se resolve teorema, é de noite que se inventa empresa. O dia é da execução, do recado, da burocracia. A criação acontece quando os fiscais dormem.
Repare na lógica nua: se a inteligência se correlaciona com horários alternativos, e se a sociedade industrial pune horários alternativos, então a sociedade industrial está estruturada para penalizar exatamente o tipo cognitivo que mais lhe seria útil. A conclusão é desconfortável e por isso ninguém quer encarar. O sistema não foi desenhado para premiar talento, foi desenhado para premiar previsibilidade. O empregado ideal não é o gênio criativo, é o cumpridor de planilha que entra às oito e sai às dezoito sem perguntar para que serve aquilo tudo.
Há ainda o detalhe econômico que ninguém comenta. Quem ganha com a sincronia matinal? Ganha o transporte público que cobra tarifa de pico. Ganha a cafeteria da esquina. Ganha o sistema de saúde, que vende ansiolítico e antidepressivo para corrigir o jet lag social que o próprio expediente impôs. Ganha o gestor medíocre, que precisa ver o subordinado fisicamente sentado para acreditar que existe trabalho sendo feito. O notívago paga o pato dessa engenharia: chega atrasado, é mal visto na reunião, recebe sermão sobre disciplina, e ainda por cima rende menos justamente porque está sendo obrigado a operar fora da própria fisiologia.
O recado dos estudos, portanto, não é apenas neurológico, é civilizatório. Talvez não exista preguiça onde se diagnosticou preguiça durante três séculos. Talvez exista apenas um animal pensante teimando em não se ajustar ao fuso da linha de montagem. Quem dorme tarde geralmente não está fugindo do trabalho, está fugindo da uniformidade. E uniformidade, aquela velha conhecida, sempre foi o nome polido que se dá à mediocridade obrigatória. Rir disso é o mínimo que se pode fazer antes de apagar a luz às três da manhã.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.