Saiu de Harvard, dessas mesmas salas onde se costuma fabricar consenso progressista embalado para viagem, uma pesquisa que contraria tudo o que se ensinou nas últimas décadas sobre evolução humana: ao varrer milhares de genomas antigos, os cientistas identificaram cerca de quinhentas variantes genéticas que ganharam tração desde o Neolítico, e algumas delas aceleraram nos últimos três ou quatro mil anos. Traduzindo para quem não faz doutorado: a seleção natural não tirou férias, não se aposentou, não entrou em licença-maternidade. Continua ali, operando em silêncio, escolhendo quem deixa descendência e quem vira nota de rodapé genética. O dogma de que a tecnologia e o conforto haviam neutralizado a biologia acaba de levar um soco no queixo, e, convenhamos, era um soco esperado.
É bom lembrar por que essa ideia de evolução congelada se tornou catecismo oficial. Ela era útil. Uma espécie que parou de evoluir é uma espécie homogênea, e uma espécie homogênea cabe dentro das planilhas do planejador social, do engenheiro de almas, do tecnocrata que sonha em nivelar tudo por decreto. Se a biologia não conta mais, então qualquer diferença observável entre indivíduos ou populações só pode ser resultado de injustiça estrutural, e portanto passível de correção via imposto, cota, subsídio e novo ministério. Enterrar a seleção natural foi, antes de tudo, uma operação política, não científica. Agora vem a própria ciência, essa traidora insolente, lembrando que o bicho humano ainda é bicho.
Siga a trilha do dinheiro e o roteiro fica transparente. Centenas de milhões de dólares foram despejados, década após década, em departamentos universitários dedicados a provar que a natureza humana é plástica como massinha de modelar, que tudo é construção cultural, que o sujeito nasce tábula rasa esperando o iluminado de plantão imprimir nele a virtude coletiva. Toda essa indústria vive de financiamento público, de fundações bilionárias, de linhas orçamentárias que só fecham a conta se o resultado final for favorável à intervenção estatal. O estudo de Harvard não derruba apenas uma hipótese, derruba um modelo de negócio. Por isso vai ser recebido com a mesma alegria de um síndico ao descobrir cupim na madeira nova.
Há também o lado cômico da história, e aqui a gargalhada é obrigatória. Enquanto ativistas juram que biologia é opinião e que o corpo humano é um menu de escolhas, o genoma segue trabalhando feito operário noturno, promovendo variantes ligadas ao metabolismo, à digestão, à resposta imunológica, à tolerância a determinadas dietas. A natureza, essa velha senhora conservadora, ignora solenemente os manifestos acadêmicos e continua fazendo o serviço sujo de separar o que funciona do que não funciona. Nenhuma assembleia, nenhum comitê, nenhum parecer de ouvidoria muda o fato de que certas mutações prosperam e outras morrem no caminho. A realidade não pede autorização para existir.
A lição de fundo é desconfortável para os apóstolos do homem novo: a espécie humana não é projeto político, é processo biológico. Nenhum programa de governo refaz seis mil anos de pressão seletiva num quinquênio de gestão. Nenhuma secretaria de igualdade apaga o fato de que populações diferentes enfrentaram ambientes diferentes, pragas diferentes, dietas diferentes, e saíram disso com marcas diferentes no DNA. Isso não é sentença de destino nem desculpa para barbárie, é apenas descrição honesta de uma coisa que existe independentemente da vontade do burocrata. A pretensão de moldar o humano por engenharia social esbarra, no fim, na mesma parede onde bateram todos os grandes utopistas da história: o humano já vem sendo moldado por algo muito mais antigo, muito mais paciente e infinitamente menos sentimental que qualquer ministério.
No fim das contas, quem paga essa conta? O contribuinte, sempre ele, que banca cadeiras universitárias inteiras dedicadas a negar o óbvio. E quem recebe? A casta acadêmico-burocrática que prospera vendendo a ficção de um ser humano infinitamente maleável, porque só um ser infinitamente maleável justifica um Estado infinitamente crescente. O estudo vem, discreto, lembrar que o rei continua nu, que a tal plasticidade total nunca existiu, e que a seleção natural, essa desaforada, segue tocando a obra sem pedir alvará. Resta rir, e rir alto, da solenidade dos que acharam que podiam decretar o fim da biologia na reunião das dez.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.