Há um tipo específico de pesadelo moderno que começa assim: você acorda atordoado sem ter bebido, o seu cônjuge não acredita em você, o seu chefe não acredita em você, o delegado definitivamente não acredita em você, e o bafômetro, esse árbitro supremo e irrefutável da verdade institucional, aponta para um número que condena. A síndrome da fermentação intestinal, chamada de auto-brewery syndrome pela medicina anglófona, é exatamente isso: uma colonização excessiva de fungos e leveduras no trato gastrointestinal que converte carboidratos comuns em etanol. O corpo fabrica cerveja por dentro. A pessoa não bebeu. O Estado não quer saber.
O mecanismo é tão elegante quanto perturbador. Leveduras como Candida e Saccharomyces cerevisiae, as mesmas que fermentam uva e cevada há milênios, encontram no intestino comprometido, seja por uso excessivo de antibióticos, seja por dieta rica em carboidratos refinados, seja por alguma disfunção digestiva subjacente, um ambiente de produção industrial. O resultado é etanol circulando no sangue em concentrações que disparariam qualquer radar de trânsito. Pacientes já foram encontrados com taxas de alcoolemia comparáveis a quem esvaziou uma garrafa de uísque. Sem tocar em um copo. Há registros de casos documentados desde a década de 1970, negligenciados pela medicina convencional por décadas a fio, porque a narrativa mais simples, a de que o sujeito estava mentindo, sempre foi mais conveniente do que a investigação cuidadosa.
Quer dizer, convenhamos: o sistema não foi construído para lidar com exceções biológicas. Foi construído para processar casos dentro de categorias predefinidas. Você bebeu ou não bebeu. O bafômetro diz que sim. Portanto, você bebeu. A lógica é circular, a conclusão é automática e a injustiça é sistêmica. Há pessoas que perderam empregos, perderam a guarda dos filhos e perderam casamentos porque o aparelho institucional, treinado para presumir culpa a partir do número numa tela, não tinha protocolo para a hipótese de que o próprio fígado do acusado estava traindo o dono. A humilhação específica de ser chamado de alcoólatra em negação, quando a pessoa genuinamente não consumiu álcool, é do tipo que não se apaga. E o Estado, naturalmente, segue em frente para o próximo caso.
Existe uma ironia que merece registro. As mesmas diretrizes alimentares empurradas por décadas por organismos governamentais de saúde, com sua pirâmide de carboidratos na base e sua desconfiança histórica das gorduras, criaram exatamente o ambiente metabólico que favorece o crescimento excessivo de leveduras intestinais. O açúcar e o amido refinado são o combustível preferido dos fungos. Quando o Estado te diz o que comer por cinquenta anos e o resultado disso é um intestino que fermenta por conta própria, e então o mesmo Estado te multa por estar "embriagado", há aí um ciclo fechado de intervenção e consequência que tem uma lógica perfeita, do ponto de vista de quem emite as multas. A cadeia de causalidade é longa demais para caber no boletim de ocorrência.
O diagnóstico existe, o tratamento existe, a literatura médica existe. Antifúngicos, ajuste alimentar severo com redução radical de carboidratos e, nos casos mais graves, intervenção hospitalar com monitoramento contínuo. A condição é reversível. O problema é chegar ao diagnóstico sem antes ser destruído pelas instituições que deveriam proteger o cidadão. Porque o sistema de saúde convencional, assim como o sistema jurídico, opera por inferência estatística: a maioria dos bêbados bebeu, logo você bebeu. A exceção não tem advogado de ofício. Tem, quando muito, um gastroenterologista que já ouviu falar do caso e que está disposto a escrever um laudo que será tratado como suspeito pelo promotor e ignorado pelo juiz.
No fundo, a síndrome da fermentação intestinal é uma parábola sobre o limite do controle. O Estado regula o que você ingere, o ar que respira, a velocidade com que dirige e o teor alcoólico do seu sangue. Mas o intestino não leu a legislação. A biologia não pede permissão. E quando o corpo decide fermentar por conta própria, toda a arquitetura de vigilância, punição e presunção de culpa revela sua fragilidade fundamental: ela foi construída para governar o comportamento humano previsível, e a vida insiste em ser imprevisível. O réu desta vez não é um motorista irresponsável. É o metabolismo. E o metabolismo, ao contrário do cidadão, não pode ser intimado a comparecer.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.