A notícia chegou com o tom de quem anuncia a ressurreição: houve trégua. As hostilidades entre os Estados Unidos, Israel e o Irã cessaram, e a imprensa devota correu para empacotar o fato em papel de seda teológico, invocando a providência como se guerras terminassem por decreto celestial, alheias a interesses, contratos, pressões e contas a pagar. Deus, certamente, age na história, mas até o mais piedoso dos medievais entendia que Ele age por causas segundas, isto é, por homens com motivos. E o motivo de uma trégua, em qualquer época, em qualquer latitude, nunca é o amor universal à humanidade. É o cálculo. É o custo. É a aritmética implacável que nenhum discurso de cúpula consegue falsificar por muito tempo.

Guerras modernas entre potências não são duelos de cavaleiros, onde a honra decide o desfecho. São operações industriais, com cadeia de suprimento, linha de crédito e janela de tolerância política interna. Os Estados Unidos gastaram, nas últimas décadas, fortunas inimagináveis em conflitos que não produziram vitória alguma, apenas ruínas estabilizadas a custo perpétuo. O Irã, por sua vez, é um regime que sobrevive há décadas exatamente porque sabe dosificar a provocação, recuar estrategicamente e vender para sua população a narrativa da resistência heroica, independentemente do resultado real no campo. Que os dois tenham chegado a uma trégua não significa que a paz venceu. Significa que ambos precisavam de uma pausa. Quem já viu negociação de mercado sabe: o vendedor que aceita recuar no preço não está sendo generoso, está salvo de um prejuízo maior.

O Irã, diz-se, declarou por orgulho que não pediu a trégua. Claro que não pediu. Nenhum regime teocrático-nacionalista admite publicamente que recuou. A retórica da resistência é o único capital que o mulá tem para distribuir internamente sem custo de câmbio. Mas o corpo da realidade é teimoso, e o fato é que as hostilidades cessaram, o que, traduzido do diplomatês para o português comum, significa que alguém mandou recado por canal indireto, alguém concordou, e o anúncio público foi costurado para que nenhum dos lados precisasse engolir a humilhação de frente. Esse teatro de honra ferida é tão velho quanto a política. Tucídides já descreveu a mecânica no século quinto antes de Cristo, sem precisar de assessor de imprensa.

Aqui mora o escândalo que a cobertura benigna preferiu não encarar: o cidadão americano, o contribuinte israelense e o iraniano comum que sobrevive às sanções são os últimos a saber por que a guerra começou de verdade, e os últimos a entender por que parou. As decisões que custam vidas e destroem cidades são tomadas em salas sem janelas, por pessoas que raramente perdem filhos em campo de batalha. A guerra é um produto vendido ao público com embalagem de necessidade histórica e recheado de interesse de aparelho de Estado, de indústria de defesa, de posicionamento geopolítico que beneficia grupos muito específicos. Quando essa guerra para, é porque esses mesmos grupos chegaram a um outro arranjo. A providência, convenhamos, costuma ter um número de conta.

Que a trégua seja real e duradoura, isso ninguém de bom senso vai recusar. Paz é sempre preferível à guerra, não porque seja politicamente correto dizer isso, mas porque guerra é destruição de riqueza, de vida e de ordem, que são os três bens que qualquer civilização digna do nome trata de preservar. O problema é tomar o cessar-fogo por virtude política dos envolvidos, quando é, na melhor das hipóteses, prudência forçada por circunstâncias. Elogiar os beligerantes por parar de se matar é como elogiar o ladrão por devolver a carteira quando percebe que a polícia está na esquina. O gesto pode ser bem-vindo, mas o louvor é desproporcional ao mérito.

A esperança de paz no Oriente Médio existe, e é legítima cultivá-la. Mas esperança sem análise é superstição. E superstição política é o combustível preferido dos que querem que você fique satisfeito com a notícia boa sem perguntar o preço que foi pago nos bastidores, sem exigir saber quais acordos foram firmados, quais concessões foram feitas, quais territórios, sanções ou rotas comerciais mudaram de mão enquanto a imprensa distribuía alívio coletivo como se fosse absolvição. A paz que vem sem transparência não é paz, é armistício com cláusula secreta. E cláusula secreta, na política de potências, tem o hábito irritante de vencer no vencimento.

Com informações do Pleno News. A análise e opinião são do O Algoz.