Arenillas, província de Sória, quarenta habitantes contados nos dedos e ainda sobra dedo. O vilarejo perdido na meseta castelhana resolveu fazer o que nenhum prefeito de capital faria: ofereceu casa sem aluguel, emprego garantido e uma vida inteira reciclada para qualquer família disposta a trocar o asfalto pelo silêncio. Não é caridade, é desespero demográfico maquiado de campanha publicitária. Quando uma comunidade precisa pagar para receber moradores, o problema deixou de ser local há muito tempo; virou o sintoma escancarado de uma doença continental que ninguém quer diagnosticar.
A Espanha tem nome para esse fenômeno, chama de España vaciada, a Espanha esvaziada, e cunhar um termo bonito é o primeiro reflexo do burocrata que não sabe o que fazer. Por trás do rótulo poético existe uma trilha bem concreta de decisões políticas tomadas durante décadas, todas favorecendo a concentração urbana, todas penalizando a vida rural com impostos sufocantes, regulações sanitárias absurdas para pequenos produtores, exigências trabalhistas pensadas para fábrica de mil empregados aplicadas ao casal que toca uma padaria de aldeia. O camponês não fugiu para Madri porque Madri ficou mais bonita; ele fugiu porque cada legislação nova tornava insustentável continuar onde estava. O resultado dessa engenharia social está agora pendurado num cartaz pedindo gente.
Vale lembrar como a história europeia tratou os vilarejos antes da mania centralizadora moderna. Durante séculos, uma aldeia de quarenta famílias era uma unidade política viável, com seus próprios costumes, sua autoridade local, sua economia razoavelmente autônoma costurada por mercados, feiras e oficinas. O sujeito nascia, casava e morria no mesmo raio de dez quilômetros e isso não era considerado tragédia, era considerado vida normal. Foi preciso muita engenharia tributária, muita propaganda de progresso e muito subsídio direcionado à indústria pesada concentrada em poucas capitais para esvaziar essa malha capilar que sustentava o continente. Cada empréstimo do banco central canalizado para o grande projeto urbano, cada incentivo fiscal para a multinacional que prometia empregos em massa, cada fundo europeu derramado nas megalópoles teve como contrapartida invisível um Arenillas a menos.
Note que o vilarejo não está pedindo verba pública nem aguardando um programa federal de revitalização. Está fazendo o que qualquer ente livre faria diante do problema real, baixando o custo de entrada, oferecendo o ativo que tem, casa, e prometendo o que pode entregar, trabalho. Isso se chama mercado funcionando no nível mais primário, oferta e demanda sem intermediário de gravata. A ironia é que esse pequeno gesto de racionalidade local contradiz toda a arquitetura macroeconômica que produziu o vazio em primeiro lugar. Quem destruiu a viabilidade da aldeia foi a mesma mão visível que agora se exibe nos jornais como solução para o despovoamento, oferecendo planos plurianuais de revitalização rural com sigla nova e logotipo colorido.
Convém perguntar quem ganha com a continuidade dessa lógica. Ganha o prefeito da capital, que vê sua base eleitoral inchar e justifica orçamentos cada vez mais gordos. Ganha a construtora que ergue conjuntos habitacionais financiados com dinheiro impresso para abrigar quem foi expulso do interior. Ganha o sindicato urbano, que recruta militantes em massa entre trabalhadores desenraizados. Ganha o ministro que cria a secretaria do despovoamento depois de ter trabalhado trinta anos para causá-lo. Perde o agricultor que abandonou o pomar, perde a criança que cresceu em apartamento ouvindo histórias de uma terra que não conhece, perde a língua local que ninguém mais fala, perde a aldeia inteira que vira nota de rodapé em estudo acadêmico. A conta, como sempre, é socializada; o benefício, como sempre, fica concentrado.
Se Arenillas conseguir atrair as famílias que procura, terá feito mais pela civilização ocidental do que dez cúpulas em Bruxelas. Não porque quarenta moradores virarão duzentos da noite para o dia, mas porque terá demonstrado, num canto esquecido da meseta, que comunidades humanas ainda são capazes de resolver seus problemas sem esperar a permissão do palácio. Resta torcer para que o governo central não descubra a iniciativa, porque no instante em que descobrir virá com formulários, regulamentos sanitários para a casa cedida, código tributário para o emprego prometido e uma comissão interministerial encarregada de estudar o caso por dezoito meses. Aí Arenillas terá trinta e nove habitantes.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.