A notícia chegou com a discrição de quem joga lixo pela janela e finge que é confete: a ABC aprovou mais um spin-off de uma série que estreou em 2005, quando o iPhone ainda não existia, o Brasil tinha Lula no primeiro mandato e o mundo se distraía com discussões sobre se Plutão era ou não planeta. Vinte e um anos depois, com vinte e duas temporadas da matriz no lombo, dois spin-offs já produzidos e uma audiência que envelheceu junto com os personagens, a emissora resolveu que a melhor ideia de 2026 é fazer mais um. A criatividade de Hollywood anda no mesmo nível de um restaurante de beira de estrada que aquece a mesma sopa há duas décadas e jura, de mãos no peito, que é receita nova.

O movimento não é burrice, é cálculo. Toda emissora aberta americana hoje sangra audiência para o streaming, e o executivo que assina o cheque sabe que lançar uma série original é loteria com bilhete caro. Marca consolidada, por outro lado, é cofrinho seguro. O público fiel já está catequizado, o merchandising já tem público garantido, o algoritmo do streaming favorece o que tem cauda longa de catálogo, e o anunciante prefere comprar espaço em algo cujo nome o departamento de marketing reconhece sem precisar pesquisar. A pergunta a fazer, sempre, é quem ganha com essa decisão, e a resposta cabe em três linhas de planilha: o estúdio, que dilui custo de produção sobre uma franquia amortizada; a showrunner, que multiplica seu poder de barganha contratual; e o acionista, que vê a ação subir num trimestre. O espectador, esse, leva o que sempre leva: mais do mesmo embalado como novidade.

Há uma fábula antiga sobre o rei que mandou tecer um manto invisível, e quanto mais o povo elogiava o tecido inexistente, mais convicto o rei ficava de que estava bem vestido. A indústria do entretenimento contemporânea é exatamente esse rei, e a imprensa especializada é a corte que aplaude. Quando o anúncio sai, vem sempre acompanhado dos mesmos adjetivos requentados: aguardado, ambicioso, audacioso, expansão do universo, novo capítulo. Ninguém pergunta a coisa óbvia, que é por que diabos precisamos de mais um capítulo de algo que já contou tudo que tinha para contar antes da pandemia de gripe suína. A resposta também é óbvia: porque a pergunta inversa, a única honesta, custaria o emprego de quem a fizesse.

O fenômeno é maior que uma série de televisão. É o sintoma de uma economia cultural que decidiu, há mais ou menos quinze anos, que risco é coisa de amador e que a única virtude empresarial reconhecível é a previsibilidade trimestral. Por isso o cinema só sabe fazer continuação, a música só sabe fazer remake, e a televisão só sabe estender franquia até a exaustão clínica. O mercado livre, em tese, deveria punir essa estagnação criativa premiando o concorrente que ousa. Mas quando o mercado é dominado por meia dúzia de conglomerados que controlam estúdios, distribuidoras e plataformas simultaneamente, a concorrência vira teatro e a ousadia vira despesa não autorizada. Quem ainda acha que assiste televisão de graça precisa lembrar que o preço, quando não sai do bolso, sai do tempo de vida.

O leitor pode achar que essa coluna está exagerando ao tratar um spin-off de série médica como sintoma civilizacional. Talvez esteja. Mas reparem na escada: primeiro normaliza-se que toda novidade seja reciclagem, depois normaliza-se que toda escolha seja entre duas variações do mesmo produto, depois normaliza-se que opinar diferente da crítica especializada seja sinal de mau gosto, e no fim do processo ninguém mais sabe distinguir o que gosta do que foi treinado a consumir. A liberdade individual mais corriqueira, a de escolher o que ver depois do jantar, foi vendida em fatias finas, e o consumidor agradeceu cada fatia achando que estava sendo presenteado. Quem paga, sempre, é quem perdeu a capacidade de perceber que está pagando. E quem recebe, sempre, é quem entendeu primeiro que vender o décimo terceiro andar do mesmo prédio dá mais lucro do que construir prédio novo.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.