A Abercrombie & Fitch, aquela marca que nos anos 2000 vendia camisa polo com perfume no saco de papel e modelo de calção na porta da loja, cravou máxima de 52 semanas a US$ 154,83. O mesmo papel que já foi piada de analista, considerado varejo zumbi condenado pelo e-commerce, hoje é queridinho de gestor. Quer dizer, nada mudou na natureza humana, só mudou o preço. E preço, no fim das contas, não é medida objetiva de nada, é o que um sujeito está disposto a pagar hoje pelo que outro sujeito está disposto a vender.
Olha, o interessante não é a alta em si, é o que ela revela sobre o ambiente monetário em que estamos nadando. Quando o crédito é farto e o dinheiro fácil escorre pelas frestas do sistema, ativos que deveriam valer X passam a valer 3X porque simplesmente há liquidez procurando destino. O varejo de vestuário adolescente virou tese de crescimento no mesmo pregão em que aposentado brasileiro descobre que o CDB não paga mais o feijão. Coincidência? Não existe coincidência em finanças, existe fluxo de capital procurando onde se esconder da erosão que os bancos centrais fabricam.
Me diz uma coisa, alguém realmente acredita que a Abercrombie descobriu a fórmula da juventude eterna do varejo? A companhia executou bem, ninguém nega, cortou gordura, repensou coleções, apostou em nichos. Mas de execução decente até múltiplo de empresa de tecnologia vai uma distância que só o otimismo alimentado a juros baixos consegue percorrer. É o velho ciclo que se repete desde que existe mercado organizado: a expansão de crédito produz booms que parecem milagres, e todo mundo esquece que milagre financeiro costuma ter data de validade impressa em letra miúda no rodapé.
Siga o dinheiro e você vai encontrar o de sempre. Fundos que precisam performar contra benchmark, gestores que precisam justificar taxa de administração, algoritmos que compram porque outros algoritmos compraram, e um andar de baixo cheio de investidores de varejo entrando na festa quando o champanhe já está pela metade. A euforia é sempre democrática na entrada e aristocrática na saída, os grandes vendem para os pequenos que chegaram atrasados achando que descobriram uma tendência. Camisa xadrez virou tese de investimento, e quando isso acontece, geralmente é hora de olhar para o relógio.
Existe uma verdade incômoda que ninguém no noticiário financeiro quer dizer em voz alta: o valor de uma empresa não está no que ela produz, está no julgamento subjetivo de milhões de agentes agindo com informação incompleta e viés confirmatório. Quando esses julgamentos convergem numa direção só, forma-se aquilo que os antigos chamavam de mania, os modernos chamam de momentum, e os prudentes chamam de armadilha. A Abercrombie pode continuar subindo, é claro, mania alguma acaba no dia em que se identifica. Mas confundir liquidez farta com fundamento sólido é o erro que se repete de geração em geração, mudando apenas o nome do papel da vez.
No fim, a máxima de 52 semanas diz menos sobre a Abercrombie e mais sobre nós. Sobre uma economia global viciada em dinheiro barato, sobre poupadores desesperados atrás de retorno em qualquer ativo que se mexa, sobre a fé quase religiosa de que dessa vez é diferente. Não é diferente. Nunca é diferente. E quando a maré virar, e ela sempre vira, o sujeito que comprou perfumaria de mall a múltiplo de software vai descobrir que o cheiro que ficou no ar não era o da colônia da marca, era o do próprio dinheiro evaporando.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.