Onze vírgula sete por cento em uma sessão. É o tamanho do salto que uma ação de semicondutores deu porque analistas descobriram, pela quinquagésima vez neste ano, que a inteligência artificial precisa de chips para funcionar. A revelação, digna de um prêmio de obviedade, bastou para movimentar bilhões de dólares em capitalização de mercado num único dia de pregão. Quer dizer, o preço de uma empresa real, com fábricas reais, funcionários reais e contratos reais, oscilou o equivalente ao PIB de um país africano inteiro porque um punhado de gestores de fundos resolveu, no mesmo café da manhã, que agora era a hora de comprar. Isto não é mercado descobrindo valor. Isto é manada correndo atrás da própria sombra.

O argumento oficial tem a elegância de um panfleto. A IA precisa de silício, o silício é escasso, logo o silício vai valer o infinito. É o mesmo silogismo que sustentou as pontocom em 1999, os subprimes em 2006, as criptomoedas em 2021 e cada mania financeira registrada desde que os holandeses resolveram hipotecar suas casas por bulbos de tulipa no século dezessete. Toda bolha começa com uma verdade, uma verdade genuína, incontestável, palpável, e termina numa avaliação que só se sustenta se você acreditar que a árvore vai crescer até o céu. A demanda por chips é real. A precificação atual dessas empresas assume que essa demanda cresce em linha reta ascendente até o Juízo Final.

Olha, ninguém está falando aqui contra semicondutores nem contra inteligência artificial. O que precisa ser dito, e ninguém diz, é que esse rally não é fruto de descoberta empresarial nem de ganho de produtividade mensurável. É fruto direto de anos de dinheiro barato jorrando dos bancos centrais, de juros artificialmente reprimidos que empurraram capital para qualquer coisa que prometesse crescimento exponencial. Quando o custo do dinheiro é fabricado por um comitê de burocratas em vez de descoberto pela poupança real das pessoas, o resultado é exatamente este: preços de ativos completamente descolados da economia produtiva. A festa parece de mercado livre, mas foi organizada e financiada pelo balcão da autoridade monetária.

Me diz uma coisa: quando estourar, e vai estourar porque toda expansão de crédito artificial termina em contração dolorosa, quem vai pagar a conta? Não serão os fundos de hedge que já embolsaram o lucro nem os executivos que exerceram stock options na alta. Serão os aposentados cujos planos de previdência compraram no topo, serão os pequenos investidores que entraram na última onda convencidos por manchetes triunfalistas, e serão os contribuintes chamados novamente a socorrer bancos "grandes demais para quebrar". A privatização dos ganhos e a socialização das perdas é o único algoritmo verdadeiramente confiável do capitalismo de compadrio contemporâneo.

O mais irônico é que a inteligência artificial, essa tecnologia genuinamente transformadora, merecia melhor destino do que virar cassino especulativo. Ela vai mudar a produtividade humana como a eletricidade mudou o século vinte, disso ninguém duvida. Mas confundir a importância da tecnologia com o preço momentâneo das ações que a fabricam é o erro clássico que cada geração de investidores insiste em cometer. A ferrovia mudou o mundo, e mesmo assim quem comprou ações de ferrovia no pico de 1873 esperou décadas para reaver o dinheiro. A internet mudou o mundo, e mesmo assim quem comprou Cisco a trezentos dólares em março de 2000 nunca mais viu aquele preço. A tecnologia vence sempre. O timing do investidor eufórico, quase nunca.

Enquanto isto, jornais econômicos celebram cada nova alta como se fosse prova de vigor econômico, quando é apenas sintoma de um sistema monetário desancorado da realidade. A economia real, aquela onde as pessoas trabalham, produzem e trocam, segue arrastando os pés com produtividade medíocre, dívidas soberanas explodindo e uma classe média sendo espremida por uma inflação que os índices oficiais teimam em subestimar. Mas na tela verde da Bolsa, tudo é festa. Até não ser mais.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.