Trinta e cinco seres humanos, entre eles um menino de dezessete anos, foram encontrados em São Paulo vivendo o que se convencionou chamar, com elegância burocrática, de condição análoga à escravidão. A perífrase é deliciosa. Análoga. Como se houvesse muitos graus possíveis entre o homem livre e a coisa que se compra, vende e descarta. Os trabalhadores vieram do Nordeste, atrás da promessa antiga que move pobre desde que pobre existe: dinheiro, comida, um teto. Encontraram o de sempre. E o Estado, esse leviatã que cobra imposto sobre o pão e sobre o sabão, que exige alvará para vender pastel na esquina, que fiscaliza a metragem do banheiro do botequim, descobriu a senzala por acidente, como quem tropeça num cadáver no meio da sala depois de anos jurando que o cheiro era da vizinha.

Pergunta primeira, a única que importa: quem paga e quem recebe? Paga o trabalhador, com o corpo e com os anos roubados. Paga o contribuinte, que sustenta toda uma máquina de inspeção do trabalho cuja única função declarada é exatamente impedir o que aconteceu. Recebe o empregador escravagista, que economizou em salário, em encargo, em décimo terceiro, em férias, em tudo aquilo que o discurso oficial transformou em sacramento intocável quando o patrão é pequeno e quer apenas contratar uma faxineira sem virar réu na Justiça. Recebe também, indiretamente, todo o cipoal regulatório que torna a contratação formal tão cara, tão burocrática, tão arriscada, que empurra os mais frágeis para a margem onde só sobra o canalha de plantão para oferecer trabalho.

É preciso entender o silogismo na sua brutalidade nua. Se o Estado se arroga o monopólio da proteção do trabalhador, se ele cobra do empresário formal uma fortuna a cada carteira assinada, se ele mantém um exército de auditores fiscais com salários de juiz federal justamente para impedir o abuso, então quando o abuso acontece na escala industrial de trinta e cinco pessoas, a conclusão é uma só: ou o monopolista é incompetente, ou é cúmplice, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Não existe quarta opção. A retórica dos direitos sociais não sobrevive ao confronto com o número trinta e cinco.

O mais saboroso é o teatro que vem depois. Virão as notas de pesar, os ministros indignados, as comissões parlamentares, os hashtags, os pronunciamentos solenes de quem nos governa entre um voo de FAB e outro. Falarão em endurecer a lei, criar nova secretaria, ampliar orçamento, contratar mais fiscais. A solução para o fracasso do aparato estatal será, como sempre, mais aparato estatal, financiado por mais imposto cobrado do mesmo coitado que já paga a conta. É o golpe mais antigo do mundo: o bombeiro que ateia fogo na casa para depois vender a mangueira, com ágio.

Enquanto isso, o nordestino continuará pegando o pau de arara, real ou metafórico, porque a terra natal foi sistematicamente sufocada por décadas de planejamento central que produziu fome onde havia engenho, dependência onde havia roça, fila de bolsa onde havia trabalho. Não se resgata da escravidão moderna quem se mantém escravo da miséria estrutural fabricada em Brasília. O grilhão de ferro do galpão paulista é apenas o capítulo final de uma corrente muito mais longa, forjada em gabinete climatizado, com canetas Montblanc e discurso humanista. A senzala mudou de endereço, mudou de nome, mudou de uniforme. O dono, esse, ficou.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.