O anúncio veio embrulhado no jargão de sempre. A Accel-KKR, gestora californiana especializada em software, oferece £ 1,85 por ação da Eleco, um prêmio simpático sobre o preço de mercado, o conselho recomenda, os acionistas aplaudem, e a empresa que passou décadas construindo software para o setor de construção europeu deixa de existir como companhia aberta na bolsa de Londres para virar mais uma peça na prateleira de um fundo americano. Fim de história, diz o release. Começo de história, digo eu.

Porque a pergunta que ninguém faz na sala de reunião é de onde saíram os bilhões que permitem a um punhado de fundos de private equity varrer o mercado europeu de tecnologia como quem passa aspirador em tapete persa. A resposta é tediosa e escandalosa ao mesmo tempo, saiu da impressora dos bancos centrais que, entre 2009 e 2022, decidiram que o preço do dinheiro seria zero por decreto. Quando o custo de capital é zero, qualquer aquisição alavancada fecha na planilha, qualquer múltiplo se justifica, qualquer sinergia imaginária vira tese de investimento. A Eleco não foi comprada, foi absorvida por uma bolha de liquidez que a política monetária inflou durante uma década e agora se recusa a estourar de vez.

Olha, não estou aqui para chorar pela Eleco, que é uma empresa privada e faz o que quer com seu patrimônio. O ponto é outro, e é mais desconfortável. Toda vez que um fundo compra uma companhia produtiva com dinheiro emprestado a juros manipulados, o que se vê é o cheque bilionário, o brinde no jantar de fechamento, o comunicado triunfante ao mercado. O que não se vê é a pequena empresa de software que não conseguiu financiamento porque o crédito subsidiado foi todo para quem já era grande. O que não se vê é o funcionário que será demitido daqui a dezoito meses quando a nova dona precisar mostrar retorno de vinte por cento ao ano para justificar a alavancagem. O que não se vê é o consumidor final da construção civil que pagará mais caro pelo mesmo software porque o mercado ficou mais concentrado.

E há a parte que ninguém no Financial Times gosta de escrever, o casamento cada vez mais explícito entre private equity e o balanço dos bancos centrais. Os grandes fundos não são inimigos do dinheiro fácil, são seus principais beneficiários e defensores. Quando aparece um economista dizendo que os juros precisam subir de verdade, que a curva precisa refletir a escassez real de poupança em vez de fantasia monetária, é justamente o setor que mais gritaria contra. Porque um mundo de juros normais é um mundo em que aquisições precisam ser justificadas por fluxo de caixa presente, não por engenharia financeira futura, e nesse mundo metade dessas transações simplesmente não acontece.

A construção civil europeia, diga-se, não precisa de outro dono financeiro para seu software. Precisa de menos regulação ambiental que triplica o custo de qualquer obra, menos exigências de licenciamento que transformam projeto residencial em odisseia burocrática, menos imposto sobre trabalho e capital que estrangula o construtor médio. Nada disso vem em release de aquisição, porque nada disso interessa a quem lucra com o arranjo atual. O construtor britânico continua asfixiado, o software fica mais caro, o fundo americano leva o pote, e a manchete diz que houve criação de valor. Criação de valor para quem, é a pergunta que a manchete não responde.

No fim das contas, £ 207,6 milhões é uma quantia modesta na escala das coisas, e a Eleco é apenas uma linha numa planilha maior. Mas cada linha dessas conta a mesma história, a de uma economia ocidental que trocou capitalismo de verdade por capitalismo de arranjo, em que empresas mudam de mãos não porque criam mais riqueza, e sim porque o dinheiro barato precisa ir para algum lugar antes que a inflação o coma. Quando a música parar, e ela vai parar, alguém vai perguntar como chegamos aqui. A resposta estará escrita em cada um desses comunicados que hoje ninguém lê com atenção.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.