O escândalo está nu na vitrine e ninguém parece corar. No ano passado, um sujeito disposto a comprar fichas de uma moeda virtual estampada com o rosto do presidente americano pagava, em média, 3,3 milhões de dólares para ser recebido em um jantar com aperto de mão e foto. Neste ano, o mesmo ritual sai por 539 mil. Queda de 81%. Traduzindo o economês para o português dos mortais, o cetro continua na mão do mesmo homem, mas a plateia descobriu que o cetro era de plástico. Quando a expectativa de retorno sobre o suborno cai, o preço do suborno cai junto. É lei de mercado, e o mercado, quando funciona, não tem piedade nem das majestades.
Recapitulemos o arranjo, porque o arranjo é a obra-prema do gênero. Cria-se uma ficha digital sem lastro em coisa alguma, batiza-se com o nome de quem ocupa o cargo mais cobiçado do planeta, e oferece-se aos compradores top de linha um benefício colateral: comer canapé na mesma sala do dono do nome. Não se vende crédito, não se vende dívida, não se vende serviço. Vende-se proximidade. E proximidade, para quem precisa de uma licença federal, de um contrato bilionário ou de uma vista grossa antitruste, é a mercadoria mais cara do catálogo. O resto é decoração para o noticiário fingir que era jantar.
Compare com qualquer corte da Europa absolutista e a coisa fica didática. O cortesão pagava ao mordomo para sussurrar seu nome no ouvido do rei, comprava títulos de nobreza vendidos em balcão, financiava as guerras do soberano e, em troca, ganhava o monopólio do sal, do tabaco ou da estrada. A diferença entre Versalhes e o jantar da memecoin é que lá havia perucas, aqui há blockchain. Na essência, é o mesmo negócio: o detentor do monopólio da força vende fatias do próprio acesso, e os compradores, todos eles, embolsam de volta múltiplos do que pagaram em forma de regulação amiga, alvará rápido ou processo arquivado. Quem assina o cheque não é filantropo. É investidor frio, e investidor frio só paga o que o ativo vale.
Por isso a queda de 81% interessa mais que a alta. Quando o preço sobe, o público bate palma para o carisma do vendedor; quando o preço desaba, fica claro que ninguém estava comprando carisma, estavam comprando expectativa de favor. Os compradores do primeiro lote já receberam o que vieram buscar, ou descobriram que o serviço prometido não vinha na entrega, ou enxergaram que a janela de influência fechou. Em qualquer das três hipóteses, o veredito é o mesmo: o ativo subjacente, a saber, o poder de fazer o Estado trabalhar a seu favor, foi reprecificado para baixo. E reprecificação para baixo em mercado de tráfico de influência é a forma mais sincera de auditoria que existe nesta república.
Repare ainda no detalhe que ninguém quer ver. A operação é perfeitamente legal, anunciada em comunicado oficial, com tabela de preços e cronograma de eventos. Não há porão, não há mala preta, não há gravação clandestina. O suborno foi institucionalizado, listado em corretora, taxado como ganho de capital. O cidadão comum, que vai preso se enfiar uma nota no bolso do guarda da esquina, assiste pela televisão o presidente vender ingressos para si mesmo enquanto comentaristas discutem se o token vai recuperar o pico. A moralidade pública foi terceirizada para o gráfico de candlestick, e a única pergunta que ainda mobiliza os indignados profissionais é se a vela da semana fecha verde ou vermelha.
No fim, o desconto de 81% é a notícia mais honesta que saiu do governo americano em meses. Confessa, sem querer, que o produto vendido é exatamente o que os críticos diziam que era, e que o próprio mercado, esse juiz que não aceita lobby, já começou a riscar o item da prateleira. O rei continua sentado no trono, mas a fila para beijar a mão diminuiu, e os que sobraram pagam preço de liquidação. Quem paga, sabemos: os trouxas que confundiram política com renda variável. Quem recebe, também: o dono do nome estampado na ficha. O que ainda falta saber é quanto tempo a ficha vai durar quando o último comprador descobrir que comprou ar com cara de presidente.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.