O número é constrangedor até para os padrões de uma república que já viu de tudo. O valor médio gasto por investidor para garantir uma cadeira no jantar com o presidente americano, evento bancado pela compra da memecoin emitida pela própria família dele, despencou de 3,3 milhões de dólares em 2025 para 539 mil em 2026. Queda de 83 por cento. Não é correção de mercado, é desabamento. E quando um produto perde quatro quintos do valor em doze meses, a explicação raramente está no produto. Está em quem paga.
Vamos ao essencial, porque o resto é fumaça. Existe um token digital sem nenhuma utilidade, criado pela família que ocupa a Casa Branca, e quem comprava o suficiente desse token recebia como prêmio um cafezinho com o chefe do Executivo da maior potência militar do planeta. Não é necessário ser jurista para enxergar o que está embaixo do tapete: trata se da venda direta, fracionada e tabelada do acesso ao monopolista da força. O imposto cobrado de uma costureira em Ohio paga o exército que dá peso simbólico àquele aperto de mão. Quem compra o aperto de mão não está comprando carisma, está comprando sinal de que o aparelho federal pode olhar para ele com simpatia. É propina com nota fiscal, e a nota fiscal vem em blockchain para parecer moderno.
A queda no preço, porém, é a parte mais saborosa da história. Em 2025, com o homem recém empossado, o ingresso valia o equivalente a três casas de luxo em Miami porque o investidor apostava em retorno regulatório, em uma ligação atendida, em um decreto bem colocado. Um ano depois, o mesmo encontro vale o equivalente a um carro esportivo. A conclusão lógica é cruel: o mercado precificou que a influência prometida não se converteu em entrega. Ou o presidente entregou menos do que vendeu, ou os compradores descobriram que o resto do governo, esse leviatã com vida própria, não obedece tão prontamente quanto a propaganda sugeria. De qualquer ângulo, é o capitalismo de compadres revelando seu ponto fraco predileto: ele depende de um vendedor honrado de favores, e o estoque sempre acaba.
Há quem prefira fingir escândalo seletivo, daqueles que se indignam com o jantar mas aplaudiram pacotes de estímulo bilionários distribuídos em surdina nos governos anteriores. A diferença entre as duas modalidades é apenas estética. Numa, o lobista veste terno cinza, marca reunião pelo telefone do escritório K Street e leva o cheque para casa em forma de contrato federal. Na outra, o lobista compra um token na internet, posa para foto e deixa o cheque na blockchain. O conteúdo é idêntico: dinheiro privado comprando decisão pública. A novidade é a falta de pudor, a transparência cínica de quem cobra na porta o que antes se cobrava nos fundos. Quase se sente saudades da hipocrisia, porque pelo menos ela rendia tributo à virtude.
O ponto que ninguém em Washington quer admitir é que esse mercado paralelo de acesso só existe porque o governo federal acumulou poder demais para dosar. Se o cargo presidencial não decidisse tarifas, não nomeasse reguladores, não escolhesse quem recebe contrato bilionário e quem é triturado pela máquina antitruste, ninguém pagaria 539 mil dólares para olhar nos olhos do ocupante daquela cadeira. Pagariam para conhecer um astro de cinema, e haveria mais dignidade no negócio. O preço do jantar é a confissão escrita do tamanho do Estado: ele vale exatamente aquilo que cobra para ser dobrado. E enquanto o tamanho do bolo público continuar do tamanho que está, sempre haverá alguém disposto a pagar pelo garfo.
A queda de 83 por cento, no fim, é quase otimista. Sugere que o mercado começa a duvidar do produto. Que os ricos descobriram, com algum atraso, que comprar acesso é como comprar promessa de chuva: o vendedor cobra na seca e some no temporal. O que continua intacto é o esquema, a estrutura, a engrenagem que transforma cargo eletivo em concessão de favores. Trocam se os nomes na cabeceira, troca se o partido, troca se a moeda de pagamento, mas o jantar nunca termina. E a conta, como sempre, chega para quem nunca foi convidado.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.