Olha só que espetáculo: basta um comunicado oficial dizendo que o parasita microscópico deu trégua para os papéis de Chipotle, Cava, Sweetgreen e companhia saltarem em Wall Street como se tivessem descoberto ouro na horta. Quer dizer, o mesmo mercado que semanas atrás tratava salada como campo minado agora abraça alface como se fosse commodity nobre. A euforia é reveladora, não do apetite do consumidor, mas da dependência umbilical que essas empresas desenvolveram em relação a um carimbo estatal que decide quando o cardápio volta a ser seguro.
Me diz uma coisa, quando foi que decidimos terceirizar para uma agência federal a tarefa de dizer ao consumidor se ele pode ou não comer uma folha verde? A resposta está escondida em décadas de construção paciente de um aparato regulatório que vendeu proteção e entregou dependência. O restaurante deixou de ser responsável direto pela integridade do que serve; virou refém de um relatório que sai de Atlanta ou de Washington e move bilhões em capitalização de mercado em minutos. O que se vê é a ação subindo. O que não se vê é a pequena cadeia regional que quebrou durante o surto porque não tinha capital de giro para atravessar três meses de manchete ruim, enquanto as gigantes com departamento jurídico e assessoria de imprensa apenas seguraram a onda.
Siga o dinheiro e o enredo fica ainda mais interessante. A agência sanitária existe formalmente para proteger o consumidor, mas seu orçamento, sua estrutura e sua sobrevivência política dependem de crises. Sem surto não há manchete, sem manchete não há dotação orçamentária engordada, sem dotação não há carreira ascendente para o funcionário público que sonha com uma cadeira em algum conselho de indústria alimentícia depois da aposentadoria. E as grandes redes, longe de detestarem a regulação pesada, aprenderam a amá-la, porque cada nova exigência de rastreabilidade, cada protocolo caríssimo, cada auditoria obrigatória funciona como muralha contra o concorrente pequeno que nunca terá capital para cumprir a papelada. Regulação, na prática, é o abraço afetuoso entre o burocrata que quer poder e o oligopolista que quer sossego.
E o consumidor, coitado, aplaude sem perceber que está pagando três vezes pela mesma tigela de quinoa. Paga na comida, cujo preço embute o custo bilionário do compliance. Paga no imposto que sustenta a agência que emite o alvará. Paga no seguro de saúde inflacionado por um sistema que trata sintoma sem nunca discutir a origem estrutural da fragilidade: cadeias de suprimento gigantescas, centralizadas, opacas, onde uma única fazenda contaminada no México derruba cardápios em quarenta estados americanos. A concentração produziu o risco, e o risco produziu a regulação, e a regulação produziu mais concentração. É a serpente engolindo a própria cauda enquanto os acionistas brindam.
Existe uma sabedoria antiga que a modernidade insiste em esquecer: antes de derrubar a cerca, entenda por que ela foi levantada; e antes de levantar uma nova cerca burocrática, pergunte a quem ela realmente serve. O mercado livre não precisa de xerife federal para punir restaurante que envenena cliente, porque o cliente envenenado não volta, o processo civil arruína o negócio e a reputação evapora em vinte e quatro horas na era das redes. A vigilância genuína é distribuída, contínua e feita por milhões de pares de olhos com skin in the game. A vigilância estatal é episódica, politizada e serve para transferir a culpa do produtor negligente para uma abstração institucional que ninguém pode processar.
Portanto, quando a manchete disser que as ações subiram porque o surto acabou, traduza mentalmente: as ações subiram porque o carimbo saiu, porque a muralha regulatória continua de pé, porque a concentração está preservada e porque o pequeno concorrente segue morto. O parasita microscópico foi embora. O parasita macroscópico, esse continua reinando, bem alimentado e com ótima cobertura de imprensa.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.