O cessar-fogo anunciado com toda a solenidade de praxe, com porta-vozes de terno, declarações em inglês para câmeras internacionais e o habitual vocabulário da esperança, durou o tempo de uma notícia no ciclo de 24 horas. Horas. Não dias, não semanas. Horas. E já na sequência, o fogo retomou onde havia parado, como se a trégua fosse apenas um intervalo para reabastecimento, um entracto sangrento entre dois atos da mesma peça que ninguém na plateia pediu para ver, mas que todos são obrigados a financiar.
Há um padrão aqui que qualquer observador honesto reconhece sem dificuldade, porque ele se repete com a constância de uma lei física: quanto mais complexo o conflito, quanto mais sobrepostos os interesses de potências externas, mais os acordos de paz se comportam como cheques sem fundo. A analogia que vem à mente não é bonita, mas é precisa. Quando dois homens brigam num beco porque cada um tem um credor diferente apontando arma para a nuca, nenhum dos dois decide a briga. Quem decide está fora do beco, longe das câmeras, e não tem o menor interesse em que a coisa termine. O Oriente Médio tem becos demais e credores de mais.
Siga o dinheiro, como sempre. O mercado global de armamentos movimenta cifras que fariam corar qualquer orçamento de saúde pública de país desenvolvido. Conflitos prolongados são contratos renovados, são linhas de produção justificadas, são lobbies satisfeitos em capitais que ficam convenientemente longe das bombas. Não se trata de teoria conspiratória, trata-se de contabilidade básica. Quando um conflito que deveria acabar em meses dura décadas, é porque alguém, em algum lugar, tem interesse preciso e mensurável em que ele continue. Isso não exige vilões de capa e cartola; exige apenas incentivos mal alinhados e Estados grandes o suficiente para alimentá-los.
A dimensão trágica, a que raramente aparece nos análises de geopolítica de botequim que infestam os noticiários, é que as populações civis de todas as partes envolvidas são ao mesmo tempo reféns e combustível. São reféns porque não escolheram o conflito, não votaram nele, não assinaram contrato algum de participação. São combustível porque a narrativa de cada lado precisa de corpos para se sustentar, de vítimas para justificar a próxima rodada, de sofrimento documentado para manter o financiamento político e material fluindo. É uma economia perversa e perfeitamente funcional. Funcional para os que estão no topo da cadeia alimentar do conflito, bem entendido.
O que fica, depois que o cessar-fogo de horas vira nota de rodapé na história, é a pergunta que ninguém nas cúpulas diplomáticas tem interesse em responder com honestidade: por que toda solução proposta por Estados e organismos internacionais para conflitos desse porte tende a perpetuá-los em vez de encerrá-los? A resposta incômoda é que organizações movidas por burocracia e poder institucional não têm mecanismo natural para resolver os próprios problemas que justificam sua existência. Uma agência criada para administrar conflitos que acaba com todos os conflitos é uma agência que fecha as portas. Nenhuma burocracia na história conhecida fez isso voluntariamente.
O pior cenário, como o título da notícia original já avisa com aquela moderação ansiosa característica do jornalismo que quer ser levado a sério sem dizer coisa alguma de definitivo, pode estar começando. Pode. Talvez. Sources disseram. Analistas apontam. É possível que. Enquanto isso, no terreno, não há "pode estar". Há ruínas. Há famílias deslocadas. Há crianças que não sabem o que é silêncio à noite. O intervalo acabou. O espetáculo continua, com o mesmo elenco, o mesmo patrocinador invisível e a mesma plateia que paga a conta sem receber ingresso.
Com informações do Pleno News. A análise e opinião são do O Algoz.