Faz pouco mais de uma década que fomos convocados, no tom professoral de quem fala com criança teimosa, a jogar fora as lâmpadas incandescentes. Aquele filamento amarelado, dizia-se, era um crime contra o planeta, um desperdício energético, um vestígio da barbárie pré-ambiental. Vieram as fluorescentes compactas, aquelas espirais sinistras cheias de mercúrio que ninguém sabia descartar, e logo depois as LEDs, anunciadas como o ápice da civilização iluminada. Pois bem, em 2026 a mesma trupe que vendeu a LED como solução definitiva descobre, com a cara mais lavada do mundo, que afinal a solução definitiva era outra. Chama-se OLED, e claro, custa mais caro.

O roteiro é tão previsível que dava para imprimir antes da estreia. Primeiro, surge o estudo encomendado, sempre por algum instituto de nome respeitável e financiamento opaco, demonstrando que a tecnologia atual envelheceu mal. Em seguida, vem a imprensa especializada repetindo, com a devoção de coroinha em missa solene, que a novidade oferece conforto visual superior, economia a longo prazo e benefícios à saúde ocular. Por fim, entram os reguladores, esses santos protetores do consumidor distraído, preparando o terreno para que a tecnologia antiga seja gradualmente sufocada por exigências técnicas que, por mero acaso, só os novos fabricantes conseguem cumprir. O cidadão, esse coitado, troca de lâmpada como troca de presidente: porque mandaram.

Convém perguntar, com a delicadeza de um leiloeiro, quem ganha dinheiro com essa reciclagem perpétua do óbvio. Não é o sujeito que paga a conta de luz, esse seguirá pagando, talvez um pouco menos no consumo e bastante mais na compra. Não é o pequeno comerciante que acabou de fazer estoque de LEDs, esse vai engolir o prejuízo calado. Quem ganha são os mesmos cartéis industriais que dominaram a transição anterior, agora com patentes novas, contratos públicos novos e selos de eficiência novos. A iluminação virou aquele restaurante japonês onde o garçom sempre traz um prato a mais que você não pediu, e a conta chega sem itemização.

Há uma lógica perversa, e perfeitamente identificável, nesse ciclo. Se as coisas duram, o fabricante quebra. Se duram para sempre, o fabricante fecha. Logo, a indústria precisa de um Estado disposto a decretar a obsolescência alheia em nome de causas nobres, porque nenhuma assembleia de acionistas consegue convencer o consumidor a trocar o que ainda funciona. O ambientalismo virou o departamento de marketing do parque industrial. Cada nova tecnologia salvadora do planeta exige que a anterior, vendida ontem como salvadora do planeta, vá para o lixo. O lixo, esse sim, cresce sem regulação nenhuma.

O conforto visual da OLED talvez exista, e a economia talvez se confirme dentro de uma década, descontada a inflação que a mesma turma do decreto vai produzir nesse intervalo. O problema não está na lâmpada, está na coreografia. Quando todo mundo concorda que algo é o futuro, e quando esse consenso vem embalado em selo verde, manchete entusiasmada e portaria ministerial, é hora de colocar a mão no bolso e contar as moedas antes que sumam. O que ilumina a casa do brasileiro há muito deixou de ser escolha sua. É liturgia de mercado, com a benção do regulador e a fatura aberta.

No fim, a pergunta é a de sempre, repetida como mantra para quem não quer ser otário duas vezes na mesma esquina. Quem paga? O dono da casa. Quem recebe? Quem fabrica, quem regula, quem certifica e quem publica o anúncio disfarçado de reportagem. A lâmpada acende, o bolso esvazia, e o ciclo recomeça quando inventarem a próxima sigla.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.