A Volkswagen encerrou a produção do Gol e quem decretou que o carro continuaria vivo não foi a montadora, não foi a imprensa especializada, não foi nenhum guru de tendências automotivas com gravata e PowerPoint. Foi o sujeito anônimo que precisa chegar ao trabalho às seis da manhã, que conhece o mecânico pelo apelido, que sabe quanto custa uma vela de ignição e quanto custa um cafezinho na esquina. Esse cidadão, que ninguém consulta em pesquisa de opinião, decidiu sozinho que o hatch envelhecido continuaria mandando no pátio das revendas. E mandou.
A pergunta que interessa é simples, quem paga e quem recebe nesse arranjo. Paga o motorista que não tem cinquenta, sessenta, oitenta mil reais para entregar num zero-quilômetro recheado de telas, sensores e assinaturas mensais para destravar o aquecimento do banco. Recebe a rede capilar de oficinas, autopeças de bairro, desmanches legalizados, chaveiros, funileiros, retificadores, todo um ecossistema produtivo que sobrevive sem subsídio, sem incentivo fiscal, sem ministério de fomento, sem comitê interministerial. Gente que aprendeu o ofício na marra, abriu o portão da garagem, pendurou uma placa pintada à mão e começou a servir o próximo. O capitalismo de verdade, esse que ninguém fotografa em Davos.
Há uma lição aqui que os engenheiros sociais detestam ouvir. Quanto mais simples a máquina, mais livre o seu dono. O Gol tem mecânica que cabe na cabeça de qualquer rapaz de dezessete anos com vontade de aprender, peça que se acha em qualquer cidade de cinco mil habitantes, manual que se decifra sem aplicativo, sem token, sem atualização de firmware enviada da Alemanha. Compare isso com os carros novos, computadores sobre rodas em que trocar uma lâmpada exige scanner, em que a bateria descarregada vira evento litúrgico, em que o proprietário é apenas um inquilino de longo prazo de algo que a fabricante ainda controla por software. A modernidade vendida como liberdade quase sempre chega como coleira nova.
É curioso o silêncio dos planejadores diante desse fenômeno. Décadas de propaganda do carro elétrico subsidiado, do híbrido com IPI reduzido, do programa de renovação de frota financiado com dinheiro que saiu, claro, do bolso do mesmo cidadão que agora prefere o usado. Bilhões em isenção tributária para empurrar tecnologia que o consumidor não pediu, enquanto o mercado, livre da tutela, escolhe o oposto. Toda vez que o burocrata desenha uma sociedade na prancheta, o povo passa por baixo da mesa e segue a vida. Os romanos chamavam isso de bom senso, hoje chamam de atraso.
O Gol vai durar nas ruas brasileiras pelo mesmo motivo que certas moedas duram séculos enquanto outras viram pó em uma geração. Confiabilidade, liquidez, custo previsível, padronização. O dono sabe que se precisar vender amanhã às sete da manhã, alguém aparece às oito com o dinheiro vivo. Existe uma economia inteira ali dentro, espontânea, descentralizada, que funciona melhor do que noventa por cento das políticas públicas escritas com assessoria de consultoria internacional. E funciona justamente porque ninguém a planejou.
Então vale repetir a pergunta inicial, agora com a resposta. Quem paga é o trabalhador que escolhe pagar pelo que entende e usa. Quem recebe é a rede produtiva que aprendeu a servi-lo sem precisar de ministro padrinho. O carro saiu de linha na fábrica e entrou em linha na vida real, que é onde as coisas de fato acontecem enquanto os doutores discutem o futuro da mobilidade em auditório com ar-condicionado central pago, novamente, por ele.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.