Tiago Martins Pitthan, 49 anos, câncer de estômago sem rota de fuga clínica, fez no último sábado em Campo Grande aquilo que a indústria solene da morte considera quase indecente, organizou o próprio velório com ele ainda em pé, ouvindo os discursos, abraçando quem veio, escutando ao vivo as homenagens que normalmente são guardadas para o ouvido surdo de um defunto. A cena incomoda porque escancara uma verdade que ninguém quer encarar, a maior parte do ritual fúnebre brasileiro não serve ao morto nem aos vivos, serve à liturgia, à funerária, ao convencional, à hipocrisia confortável dos que choram quem nunca visitaram em vida.

O fato concreto é simples e demolidor, um sujeito que sabe que vai morrer decidiu que o roteiro da própria despedida pertence a ele, não ao costume, não ao padre de plantão, não ao protocolo que combina caixão fechado, terço apressado e sanduíche de mortadela na sala ao lado. Esse gesto é mais subversivo do que parece, porque toca no único bem que de fato sobra ao indivíduo depois que o Estado já lhe confiscou metade do salário, regulamentou o que ele pode comer, dirigir, fumar, plantar e dizer, a saber, a propriedade sobre o próprio corpo e sobre a história que ele conta enquanto ainda tem boca para contá-la.

Não é por acaso que sociedades que adoram tutelar tudo costumam estranhar gestos assim. Em Roma antiga, gladiadores condenados ainda tinham a dignidade do gesto final no anfiteatro, escolhiam como saudar a plateia antes de cair. No Japão de outrora, o samurai redigia o poema da morte com letra firme, porque o último ato pertencia a quem morria, não ao monge que rezaria depois. O que esses povos sabiam, e que o brasileiro contemporâneo desaprendeu sob décadas de paternalismo terapêutico, é que morrer também é um ato de autoria, e quem terceiriza a própria despedida acaba enterrado pelos outros duas vezes.

Vale a pergunta incômoda, quem paga e quem recebe nesse arranjo todo que envolve a morte oficial brasileira? Paga a família, em parcelas de plano funerário vendido com a sutileza de um corretor de seguro de carro, paga o doente que durante meses sustenta uma estrutura hospitalar inchada por regulação, paga o contribuinte que financia o Sistema Único enquanto o paciente terminal espera por leito que não chega. Recebem as funerárias cartelizadas por exigências municipais, recebem os intermediários do luto, recebe a burocracia que transforma certidão de óbito em via crúcis de carimbo. O moribundo recebe, na melhor das hipóteses, a piedade tardia de quem nunca lhe ligou em vida.

Por isso o velório em vida desse advogado é mais do que comovente, é silogismo encarnado. Premissa primeira, a vida é do indivíduo e não do coletivo abstrato que tutela tudo em nome de proteger ninguém. Premissa segunda, a morte é o último capítulo dessa vida e segue a mesma lógica de pertencimento. Conclusão inevitável, ninguém tem autoridade moral para dizer ao homem como ele deve atravessar a própria porta de saída. O resto é decoro vendido em prestação, é convenção fantasiada de respeito, é o eterno medo brasileiro de que alguém ouse fazer pela própria conta aquilo que o costume reservava para o coletivo decidir.

Há, ainda, a lição cultural que ficará para quem ler a notícia e desviar o olhar, a coragem de encarar a finitude é o antídoto mais barato contra a infantilização permanente que nos vendem como cuidado. Um povo que não fala da morte aceita qualquer coisa em troca da ilusão de adiá-la, aceita imposto, aceita censura sanitária, aceita perder liberdade em nome de uma segurança que nenhum estatístico honesto consegue prometer. O homem que organiza o próprio velório está, sem saber, dando aula de filosofia política, mostrando que o indivíduo livre é aquele capaz de olhar para o fim e sorrir, em vez de delegar até o seu derradeiro gesto a um balcão de repartição. O rei está nu, e dessa vez foi o moribundo quem teve a coragem de apontar.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.