A cena merece ser congelada como peça de museu da República. Em dezembro de 2024, o plenário da Assembleia Legislativa da Bahia se ergueu de pé para aplaudir o advogado Daniel Monteiro, braço jurídico e financeiro das operações de Daniel Vorcaro no Banco Master, recebendo das mãos do líder do governo de Jerônimo Rodrigues o título de cidadão baiano. O mesmo sujeito que hoje aparece na papelada da Polícia Federal como peça central do arranjo que transformou um banco médio em máquina de engenharia contábil virou, por decreto parlamentar, irmão espiritual de Castro Alves e Dorival Caymmi. Faltou a salva de vinte e um tiros e o convite para padrinho de carnaval.
A pergunta que todo contribuinte deveria fazer, sentado à mesa do café da manhã com o boleto do IPTU na mão, é a mais básica do catecismo cívico: por que um advogado paulista, cujo ofício é costurar operações financeiras sofisticadas para um banco privado, merece o carinho oficial de um parlamento estadual a mais de mil e quinhentos quilômetros do seu escritório? Cidadania honorária não cai do céu, não brota de gratidão espontânea, não nasce de admiração literária. Ela é solicitada, articulada, votada e entregue. Há sempre um padrinho, há sempre um contexto, há sempre uma fatura em algum lugar do caminho, mesmo que ninguém ouse chamar de fatura.
Convém lembrar, para quem acompanhou o enredo pela imprensa distraída, que o Banco Master não era um correspondente bancário do interior. Era máquina de captar CDB com taxas acima do mercado, empacotar títulos públicos podres, emprestar para aventuras diversas e, sobretudo, orbitar como um satélite discreto em torno de bancos públicos, fundos de pensão de estatais e operações de crédito que envolviam dinheiro do contribuinte em escala industrial. Quem opera juridicamente esse tipo de engenhoca não é figurante. É engenheiro da obra. E quando o engenheiro da obra ganha medalha do governo estadual, o leitor atento entende que a obra tinha interessados em muitos andares.
Homenagens parlamentares funcionam como aqueles brasões medievais que os mercadores ricos compravam dos reis falidos. O rei precisava de dinheiro, o mercador precisava de prestígio, e o cartório emitia o pergaminho. A diferença é que nas monarquias europeias o arranjo era explícito, quase honesto na sua desonestidade. Aqui no trópico, finge se que o título é gratuito, simbólico, sentimental. Como se um líder de governo petista na Bahia acordasse certa manhã lendo a biografia de um advogado de banco em São Paulo e, comovido pelas virtudes cívicas do homenageado, corresse para protocolar a honraria. Quem acredita nessa versão também acredita em papai noel fiscal e em reforma tributária que diminui imposto.
A lógica é elementar e por isso desagradável. Se o partido que controla o governo estadual homenageia o operador jurídico de um banco que movimentava dinheiro com bancos públicos e fundos de pensão, há três possibilidades e nenhuma delas é inocente. Ou o partido recebeu algo, ou espera receber algo, ou está pagando por algo já recebido. Não existe quarta opção no mercado da política, porque política com dinheiro grande nunca foi, não é e não será atividade contemplativa. Os envolvidos podem até fingir que foi apenas gentileza protocolar, mas gentileza protocolar não se estende a operadores de esquemas financeiros quando a máquina pública tem relações com esses esquemas. A não ser, claro, que o significado da palavra gentileza tenha sido oficialmente alterado no dicionário oficial das bancadas.
E aqui está o sumo amargo da história. O contribuinte baiano, que paga ICMS sobre o feijão e sobre o gás de cozinha, financiou, por via da estrutura parlamentar que sustenta, a cerimônia em que o próprio aparelho estatal abraçou publicamente um personagem do mundo financeiro cujas operações hoje são objeto de investigação federal. O pagador de imposto é sempre o último a saber quem recebe as honrarias compradas com o suor dele. Enquanto o plenário aplaudia o novo cidadão baiano, algum aposentado em Feira de Santana conferia se tinha saldo para comprar o remédio da pressão. Essa é a contabilidade real do poder, e nenhuma ata de sessão solene registra esse saldo. Quem paga a conta não assina o convite, e quem assina o convite nunca explica quem pagou a conta.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.