Domingo, dia 10. Atlanta, Dallas, Chicago, Orlando, Los Angeles, Nova York, Houston, Detroit, Boston. Não é a lista das cidades mais visitadas do turismo americano, é o mapa do colapso: 1.910 atrasos e 135 cancelamentos num único dia, passageiros empilhados em filas que não andavam, remarcações que saíam para três dias depois, e aquela cara específica que as pessoas fazem quando percebem que ninguém está no comando. É uma cara que todo mundo conhece. É a cara de quem acabou de entender, tarde demais, que dependia de uma estrutura que não tem concorrente, não tem substituto e, portanto, não tem incentivo algum para se importar com o seu domingo.

Existe uma lei não escrita no mundo dos negócios que diz o seguinte: quem não pode perder o cliente não precisa agradá-lo. O controle do espaço aéreo americano é exercido por uma agência federal que nasceu há décadas com a promessa de trazer ordem ao caos da aviação civil. Cumpriu a promessa pela metade. Trouxe ordem para si mesma, na forma de orçamento garantido, cargos protegidos e ausência total de prestação de contas. O caos, esse ficou para o passageiro. Toda vez que o sistema desmorona, a resposta institucional é a mesma: o problema é que falta verba, falta pessoal, falta equipamento. Nunca falta vontade de existir. Nunca falta justificativa para continuar. O fracasso vira argumento para expansão. É o milagre administrativo do Estado moderno: quanto pior o desempenho, maior o pedido de orçamento.

Compare o experimento mental com o que acontece no mundo privado. Uma empresa aérea que cancela sistematicamente voos perde passageiros para a concorrente. Perde dinheiro. Perde contratos. Eventualmente desaparece ou se reinventa. É brutal, é impessoal, e é exatamente por isso que funciona. O feedback do mercado é imediato e impiedoso: serviu bem, continuou; serviu mal, fechou. Agora aplique a mesma lógica ao controle de tráfego aéreo administrado pelo governo federal americano e explique-me, com calma, como é que alguém responsabiliza o responsável. O passageiro preso em Atlanta no domingo não pode ligar para o concorrente da FAA. Não existe concorrente da FAA. Existe a FAA e existe o saguão.

O que poucos param para calcular é o custo real desse domingo de colapso, e não estou falando apenas dos bilhetes remarcados e dos hotéis de emergência. Estou falando de reuniões de negócios perdidas, de contratos que não foram assinados, de trabalhadores que não chegaram a tempo, de mercadorias que viajavam no porão e que ficaram no aeroporto. Esse custo não aparece em nenhum relatório da agência. Aparece no bolso de cada passageiro individualmente, pulverizado e invisível, exatamente como o Estado prefere que seus custos apareçam: sem endereço de cobrança, sem responsável identificado, sem chance de processo. Os americanos pagam impostos que financiam a estrutura, pagam tarifas que financiam os aeroportos, pagam bilhetes que financiam as companhias, e no fim do dia pagam mais uma vez em tempo perdido e planos desfeitos. Quatro camadas de pagamento para um serviço que não funcionou.

Há países que tomaram uma decisão diferente. Separaram o controle do tráfego aéreo da máquina governamental, transformaram em entidades autônomas ou privadas, submeteram ao teste da realidade. O resultado foi, em geral, melhor desempenho, mais eficiência e custos menores para o passageiro. Não porque os funcionários passaram a ser mais virtuosos ou mais dedicados, mas porque passaram a existir consequências reais para o mau desempenho. A virtude que o mercado exige não é a virtude moral, é a virtude da competência, e ela floresce onde há risco e murcha onde há garantia. O servidor público americano que gerencia o espaço aéreo recebe seu salário independentemente de quantos voos atrasarem no domingo. Essa frase resume o problema inteiro.

No fim do dia, a pergunta que ninguém faz nas coberturas jornalísticas, nas entrevistas com autoridades, nos comunicados oficiais das companhias aéreas, é a mesma de sempre: quem pagou e quem recebeu? Os passageiros pagaram, em dinheiro, em tempo, em nervos gastos em filas que não andavam. A burocracia recebeu, em salários, em orçamento preservado, em existência continuada apesar do fracasso. É uma equação que se repete com tanta constância que já parece lei da natureza, quando na verdade é só política pública com boa narrativa. O sistema não falhou no domingo. Ele funcionou exatamente como foi desenhado para funcionar: em benefício de quem o opera, às custas de quem o usa.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.