O anúncio vem embrulhado em celofane épico: onze países africanos, oito mil quilômetros de árvores, uma muralha viva para deter o avanço do Saara sobre o Sahel. A imagem é cinematográfica, quase bíblica, daquelas que rendem capa de revista e discurso emocionado em cúpula climática. O problema começa quando a gente desencosta da poesia e olha para a planilha. A Grande Muralha Verde foi lançada em 2007, já consumiu bilhões de dólares de bancos multilaterais, fundos europeus, agências da ONU e ministérios do clima espalhados pelo planeta, e as auditorias mais recentes admitem, a contragosto, que algo entre quatro e dezoito por cento da meta original foi efetivamente plantado. Dezoito anos depois. Faça as contas de quanto custou cada árvore que vingou e você entenderá por que ninguém quer fazer essa conta em público.
A pergunta incômoda nunca é feita pelos jornais que reproduzem o release: se desertificação se resolvesse com decreto e fotografia aérea, o Saara já estaria reflorestado desde os tempos dos faraós. O solo do Sahel não secou porque faltou comitê internacional, secou porque populações inteiras foram empurradas, por guerras civis fomentadas, golpes apoiados, agricultura de subsistência sufocada por importações subsidiadas vindas de fora, para arrancar lenha em ritmo industrial só para cozinhar o jantar. O remédio oferecido, no entanto, é mais do mesmo veneno: enviar caminhões de dinheiro estrangeiro para burocracias locais que jamais prestaram contas a ninguém, contratar consultorias europeias que cobram em euro para ensinar camponeses sahelianos a plantar acácia, e chamar isso de cooperação internacional.
O esquema é tão antigo quanto rentável. Banco mundial libera empréstimo, governo africano assina, a verba passa por uma cascata de intermediários, ONGs ocidentais ficam com a fatia de gerenciamento, empresas de auditoria ficam com a fatia da medição, palestrantes profissionais ficam com a fatia dos seminários em Nairóbi e Dakar, e o que sobra, se sobra, chega na forma de mudas que morrem na primeira estiagem porque ninguém na cadeia teve incentivo real para que vingassem. Quem paga é o contribuinte europeu, o contribuinte americano, e principalmente o próprio camponês africano, que assistirá o filho pagar a dívida soberana contraída em seu nome para financiar um projeto do qual nunca foi consultado. Quem recebe é a classe internacional do desenvolvimento sustentável, esse novo clero que troca incenso por créditos de carbono.
Há ainda o detalhe geopolítico que ninguém quer tocar. A faixa do Sahel é hoje o teatro mais quente da disputa entre potências por urânio, ouro, lítio e rotas migratórias. Mali, Burkina Faso, Níger expulsaram tropas francesas, abriram portas para mercenários russos, viraram tabuleiro de uma nova partilha. Uma muralha de oito mil quilômetros, com infraestrutura de monitoramento, satélites, postos de fiscalização e logística pesada, é coisa de utilidade dupla, para dizer o mínimo. Reflorestar é a desculpa nobre, mapear o terreno e ancorar presença é o produto. As árvores, coitadas, são apenas a fachada vegetal de um projeto cuja natureza real ninguém precisa explicar para quem já leu duas linhas de história colonial.
O destino dessas populações não será decidido pela densidade de acácias plantadas, e sim pelo direito básico que lhes foi sequestrado: o de possuir a própria terra, de cultivá la sem pedir licença, de comerciar livremente o que produzem, de não ter o pequeno excedente sugado por governos predatórios que existem para servir credores externos. Onde houve segurança de propriedade e liberdade de comércio, mesmo em solos pobres, mesmo em climas hostis, a humanidade plantou pomares no meio da pedra. Onde há tutela internacional permanente, transformaram pomares em deserto. A muralha verdadeira que falta erguer no Sahel não é de árvores, é de direitos. Mas dessa muralha não sai foto bonita para cúpula em Genebra, então seguirão plantando mudas mortas e contando histórias.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.