Desde a segunda-feira passada, um pré-candidato à Presidência da República do Brasil perambula pelos corredores de Washington esperando que alguém da Casa Branca se digne a abrir a porta. A agenda oficial divulgada para terça-feira não traz o nome dele em lugar algum, nem como linha de rodapé, nem como reunião técnica de cinco minutos com algum assessor de terceiro escalão. Não há audiência, não há foto, não há aperto de mão. Há apenas um brasileiro de passaporte diplomático de fato consumado tentando produzir a ilusão de relevância internacional num hotel cujo nome ele evita mencionar.

O espetáculo seria cômico se não fosse, no fundo, profundamente sintomático da política brasileira contemporânea, essa indústria peculiar em que o sobrenome funciona como moeda de curso forçado e a viagem internacional como liturgia de legitimação. A operação é simples e antiga: você compra a passagem, se hospeda no hotel certo, posta uma foto na frente de algum prédio importante, e quando volta ao Brasil vende a peregrinação como prova de articulação geopolítica. Funcionou com governadores que iam tirar selfie em Israel, funcionou com deputados que iam beijar bandeira em Miami, e agora alguém decidiu tentar a mesma receita em escala presidencial. O problema é que, desta vez, o anfitrião não compareceu nem mandou recado.

E aqui vem a pergunta que ninguém faz porque o jornalismo brasileiro está mais interessado em narrar a peripécia do que em apresentar a fatura: quem paga essa estadia? Quem custeia a passagem, a diária, a alimentação, o aluguel de carro, o jantar de quatro talheres com lobista de aluguel que se vende como conselheiro do círculo íntimo do presidente americano? Se for dinheiro privado, ótimo, é problema do bolso de quem assinou o cartão. Se for dinheiro de campanha, já estamos falando de doadores que financiam turismo travestido de diplomacia. Se for, de alguma forma triangulada, dinheiro público, então o contribuinte brasileiro está bancando o passeio fashion de um sujeito que sequer foi recebido pelo porteiro da Casa Branca. Os três cenários merecem indignação proporcional ao envolvimento involuntário do pagador.

Há uma lição clássica nisso, daquelas que qualquer cortesão das antigas cortes europeias entendia no primeiro dia de ofício: imperador não recebe quem ele não quer receber, e o silêncio do palácio é a forma mais eloquente de devolver o cartão de visita. Quando o czar russo deixava um embaixador estrangeiro esperando audiência por semanas no salão de espera de São Petersburgo, a mensagem era cristalina, e cabia ao embaixador retornar com a humildade necessária para evitar humilhação maior. O peregrino brasileiro contemporâneo, no entanto, descobriu o expediente inverso, que é transformar a humilhação em conteúdo para as redes sociais e vender a antessala como se fosse a sala de jantar.

O mais fascinante é a engrenagem retórica que sustenta o teatro. A imprensa aliada noticia que ele está em Washington, omitindo que ninguém o esperava. Os apoiadores compartilham a notícia como prova de protagonismo, omitindo que protagonismo de verdade não precisa esperar na fila. E o personagem central, em vez de voltar para casa e fazer política onde a política do Brasil acontece, prolonga a estadia na esperança de que o constrangimento se converta, por algum milagre da fotografia, em legitimidade. Não se converte. Nunca se converteu. As coisas são o que são, e uma agenda oficial que não menciona seu nome é exatamente uma agenda oficial que não menciona seu nome, por mais que três colunistas amigos tentem reescrever a realidade no parágrafo seguinte.

No fim, fica a pergunta inicial, agora com nome e endereço: quem paga essa diária e quem recebe esse retorno? O pagador, em última instância, é sempre o eleitor confundido, que financia com voto e com imposto uma classe política que trata cargo público como passaporte para turismo de luxo. O recebedor é a casta inteira, que precisa do faz de conta internacional para manter o preço da própria ação subindo no mercado interno. Enquanto isso, o porteiro de Washington continua de olhar fixo no horizonte, fingindo não ver o brasileiro que insiste em bater na porta errada.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.