O experimento é desses que deveriam constranger qualquer um que confunde manual de física do ensino médio com texto sagrado. Pesquisadores fizeram passar fótons por uma nuvem de átomos e mediram, com instrumentos honestos, algo que a intuição se recusa a aceitar: as partículas de luz emergem do outro lado do meio antes que tenham, em sentido clássico, terminado de entrar. O tempo de grupo, essa medida pedante que os livros tratam como dogma, deu negativo. Negativo. A flecha do tempo, que vendem como lei universal desde a primeira aula de termodinâmica, mostrou que, no andar de baixo da realidade, ela é mais uma convenção contábil do que um decreto da natureza.

Convém entender o tamanho da blasfêmia. Durante décadas, qualquer pesquisador que ousasse sugerir que o tempo poderia, em certas condições, comportar-se de modo não monotônico era tratado como charlatão de feira. A ortodoxia acadêmica, sempre tão democrática nos discursos e tão stalinista no comitê editorial, exigia reverência ao consenso. E aqui está o consenso, no laboratório, desmentido pelo próprio aparelho que os ortodoxos calibraram. É a velha história: quando todos concordam, desconfie; quando ninguém pode discordar, fuja. A ciência viva é o oposto da ciência subvencionada.

Note a ironia deliciosa. Enquanto fótons cometem a heresia de chegar antes de partir, o cidadão comum vive submetido ao tempo linear mais cruel do planeta, o tempo do fisco. Você trabalha hoje para pagar imposto sobre dívida que o governo contraiu décadas atrás em nome de obras que nunca viu. Seu salário é confiscado em janeiro para custear promessa eleitoral feita em outubro do ano passado para beneficiário que receberá em dezembro do próximo. A burocracia inventou a viagem no tempo muito antes do laboratório: chama-se orçamento plurianual, e a única partícula que ela faz desaparecer é o seu dinheiro.

O experimento também escancara uma assimetria moral que ninguém quer ver. A natureza, quando contradiz a expectativa, é homenageada com prêmio e capa de revista. O contribuinte, quando contradiz a previsão de arrecadação, é homenageado com auditoria e penhora. Um fóton pode sair antes de entrar e vira manchete elogiosa; um empresário que antecipa receita para sobreviver à inflação galopante vira réu. Quem dita essa diferença de tratamento? Não é a física, garanto. É o monopólio da força que se autointitulou árbitro do real e cobra pedágio até nas leis da causalidade.

Há ainda a lição epistemológica, que o jornal de massa jamais extrairá. Se o tempo, essa entidade que parecia tão sólida quanto granito, comporta-se de modo contraintuitivo nos seus alicerces, imagine então as construções políticas que se erguem sobre dogmas bem mais frágeis. Modelos econométricos que projetam PIB para 2030 com casas decimais. Planos de transição energética com cronograma de duas décadas. Metas de inflação calibradas como se a moeda fosse régua e não veneno. Se a luz mesma debocha da linearidade temporal, o que dizer das planilhas que prometem prever o comportamento humano? O planejador central, esse semideus de gabinete, é menos confiável do que um átomo de rubídio resfriado.

Resta a pergunta que importa, a que todo experimento deveria provocar e que a imprensa científica, domesticada por agências de fomento, evita como gato evita banho. Quem paga essa pesquisa e quem colhe seus frutos? Se a verba vem do contribuinte, o conhecimento gerado é dele, e não propriedade exclusiva de consórcio universitário que patenteia descoberta financiada com dinheiro alheio. A física quântica é fascinante; a economia política da física quântica, fascinante e nojenta. O fóton volta no tempo, mas o imposto, esse, segue sempre em frente, sem direito a reembolso.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.