São Paulo exportou mais de US$ 6 bilhões em produtos do agronegócio nos três primeiros meses do ano e importou cerca de US$ 1,55 bilhão, gerando um superávit de US$ 4,5 bilhões. O número é espetacular e, como todo número espetacular produzido pelo setor privado brasileiro, funciona simultaneamente como troféu e como alvo. Troféu para quem acordou às quatro da manhã, enfrentou estrada destruída, lidou com burocracia de fazer inveja a Bizâncio e ainda assim conseguiu colocar soja, carne e açúcar nos portos do mundo. Alvo para uma máquina estatal que não produz um grão de arroz mas se considera sócia majoritária de tudo que brota da terra.

O dado saiu da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, e é preciso uma dose generosa de ironia para apreciar a cena: um órgão público, sustentado por impostos arrancados do setor produtivo, anuncia com pompa e circunstância o sucesso de quem produz apesar dele. É como o assaltante que elogia a vítima por carregar uma carteira tão gorda. A Secretaria existe, o secretário tem gabinete com ar-condicionado, o assessor tem assessor, e nenhum deles plantou um pé de alface. Mas o comunicado sai em primeira pessoa do plural: "registramos", "alcançamos", "nosso agronegócio". O pronome possessivo é a arma favorita do burocrata.

Sigamos a trilha do dinheiro, que é onde a história real se esconde. O produtor paulista vende em dólar, mas paga insumos, impostos e dívida em real. Entre a cotação de Chicago e o extrato bancário do fazendeiro existe um labirinto fiscal que inclui ICMS, Funrural, contribuições sindicais compulsórias, taxas fitossanitárias, licenciamentos ambientais que demoram mais que a safra inteira, e uma legislação trabalhista que trata o empregador rural como se fosse um barão feudal escondendo servos na senzala. Cada centavo que escapa dessa máquina trituradora e chega ao bolso de quem efetivamente produziu é um pequeno milagre de resistência econômica. O superávit de US$ 4,5 bilhões não mede a riqueza gerada; mede a riqueza que sobreviveu.

E aqui entra a pergunta que o jornalismo convencional jamais formula, porque formulá-la seria admitir a natureza parasitária do arranjo: se o agronegócio gera essa montanha de divisas praticamente sozinho, por que precisa de uma Secretaria de Agricultura, de um Ministério da Agricultura, de um Banco do Brasil subsidiando crédito rural com dinheiro que veio, em última instância, do próprio setor produtivo? A resposta é desconfortável. Não precisa. A burocracia agrícola existe para justificar a si mesma e para canalizar parte da riqueza gerada no campo para uma clientela política que mora na cidade e vota em troca de cargos. O Plano Safra, para ficar num exemplo, é vendido como "apoio ao produtor" quando, na prática, é um mecanismo pelo qual o governo primeiro tributa o campo, depois devolve parte do confisco como crédito subsidiado, cobra juros, exige garantias e ainda coloca no currículo que "incentivou a agricultura". É o sujeito que rouba seu relógio e depois vende de volta a hora.

O mais revelador, porém, é o silêncio sobre o que esses US$ 4,5 bilhões de superávit representam para o cidadão comum. Cada dólar que entra no país pelo agronegócio sustenta a balança comercial que, por sua vez, segura o câmbio que, por sua vez, impede que a inflação devore o salário do trabalhador urbano que não sabe a diferença entre soja transgênica e soja convencional. O sujeito que reclama do "agronegócio destruidor" no Twitter, digitando no smartphone que comprou com salário que só existe porque o campo gera dólar, é a versão moderna do aristocrata que desprezava o comerciante enquanto jantava o pão que ele trazia. A riqueza do agro sustenta o país inteiro, inclusive os que querem destruí-lo, e essa talvez seja a maior prova de que produtividade e gratidão são conceitos que nunca se encontraram na história política brasileira.

Pergunte-se: quem paga e quem recebe? Quem paga é o produtor que enfrenta câmbio volátil, estrada esburacada, diesel tributado até o absurdo e uma opinião pública alimentada por ONGs internacionais que recebem subsídios europeus para sabotar a concorrência brasileira. Quem recebe é o Estado que não plantou, não colheu, não exportou, mas aparece na foto e manda a conta. O superávit é do agro. O mérito é do agro. O imposto, como sempre, é de Brasília.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.