A cena tem valor antropológico. Um ministro da Fazenda atravessa o Atlântico, senta em auditório climatizado de Barcelona e solta, entre um canapé e outro, a queixa de que "não está conquistando corações" com a regulamentação do mercado de carbono. O drama do homem é comovente. Ele governa o sexto país mais populoso do planeta, tem a caneta que define quanto cada cidadão paga de tributo, dispõe da imprensa subsidiada, da publicidade oficial, das agências reguladoras, dos bancos públicos, e ainda assim lamenta que o povo não entende. Há séculos que cortesãos reclamam assim em salões europeus, sempre espantados com a ingratidão dos camponeses que não compreendem a nobreza das taxações feitas para o próprio bem deles.

Convém traduzir o dialeto. "Mercado de carbono" é o nome bonito para um arranjo em que o governo cria artificialmente uma escassez, a escassez do direito de emitir gás, depois vende esse direito, depois regulamenta a venda, depois fiscaliza a regulamentação, depois taxa a fiscalização. É o moto perpétuo da burocracia, movido a combustível fóssil chamado contribuinte. No fim da esteira, alguém paga mais caro pela gasolina, pelo frete, pelo frango, pelo cimento, pelo pão. Esse alguém é sempre o mesmo sujeito, o trabalhador que nunca viu Barcelona e não foi consultado sobre coração nenhum.

Agora siga o dinheiro, porque é aí que a prosa fica interessante. Quem ganha com certificado de carbono? Tradings financeiras que operam o papel, consultorias que auditam o papel, ONGs que validam o papel, fundos internacionais que empacotam o papel e revendem. Quem perde? A indústria nacional que precisa produzir tijolo, aço, comida, combustível, e agora tem uma nova camada de custo travestida de virtude planetária. O camarada de Barcelona não está apresentando uma política pública, está apresentando uma transferência de renda do setor produtivo para o setor rentista, com selo verde para disfarçar o cheiro.

O silogismo é brutal na sua simplicidade. Toda regulamentação impõe custo. Todo custo é pago por alguém. Se o custo não é pago por quem desenhou a regulamentação, é pago por quem não foi ouvido. Logo, regulamentação de cima para baixo é confisco com cerimônia. Não há mistério aqui, não há complexidade técnica que justifique seminário em catalão. O que há é o velho truque de vestir o saque com jargão anglófono, pendurar a palavra sustentabilidade na porta e esperar que o freguês aplaudir antes de ser algemado.

O detalhe mais saboroso da confissão é esse lamento de que o povo resiste. Que bela notícia. Significa que décadas de propaganda verde, de novela ambientalista, de aula de educação moral e cívica ecológica não conseguiram convencer o brasileiro de que ele precisa ficar mais pobre para o termômetro global baixar duas casas decimais daqui a oitenta anos. O cidadão, esse ser estranho que paga a conta, percebe pelo bolso o que a academia não percebe pelo doutorado. O instinto de preservação funciona melhor do que qualquer modelo econométrico.

O ministro deveria agradecer a ingratidão popular em vez de choramingar com ela. Ingratidão de contribuinte é sintoma de saúde cívica. Povo que bate palma para cada nova taxa é povo domesticado, e povo domesticado não reclama quando o próximo confisco vier embrulhado em qualquer outra nobre causa. O problema do governante contemporâneo não é conquistar corações, é convencer carteiras já vazias a se abrirem mais uma vez. E quanto a isso, a resposta silenciosa da dona de casa no caixa do supermercado vale mais do que todos os auditórios de Barcelona juntos. Quem paga sabe. Quem recebe finge que não entende por que o pagador está de cara feia.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.