O espetáculo se repete com a precisão de um relógio suíço, daqueles que o fazendeiro endinheirado compra no duty free. Vice sobe no palanque da Agrishow, em Ribeirão Preto, sorri para as câmeras ao lado de colheitadeiras gigantes, e anuncia dez bilhões de reais em crédito para modernizar o maquinário do campo. A plateia aplaude, os jornais batem palmas, os industriais de John Deere e CNH abrem o champanhe na sala dos fundos. Festa para todos, exceto para uma figura ausente da cerimônia: o sujeito que vai pagar a conta sem ter sido convidado para o brinde.

Crédito subsidiado não cai do céu, não brota em árvore, não é fabricado pelo Espírito Santo da agricultura. É dinheiro retirado, via tributação ou via emissão monetária, de um lugar para ser entregue em outro. Quando o governo oferece juro abaixo do mercado, alguém banca a diferença. Esse alguém é o assalariado que vê o salário corroído pela inflação, é o pequeno comerciante que paga imposto sobre imposto, é a dona de casa que descobre o feijão mais caro no mês seguinte. A magia do anúncio bilionário consiste exatamente em esconder essa transferência por trás de um sorriso paternal e de um cenário com trator novo ao fundo.

E que se observe quem fica com o dinheiro de fato. Não é o pequeno produtor familiar que aparece nos discursos de domingo. O grosso da bolada vai para os grandes conglomerados do agronegócio, capazes de apresentar garantias robustas, contratos amarrados e advogados especializados em ordenhar o tesouro nacional. Junto deles, os fabricantes de máquinas, que adoram crédito subsidiado pela razão mais simples do mundo: ele permite cobrar mais caro pelo equipamento, já que o comprador olha apenas a parcela mensal, não o preço do bem. O subsídio vira margem, e a margem vira lucro de balanço auditado em Frankfurt ou Chicago.

Há quem diga que isso é estratégico, que a soberania alimentar exige, que o campo precisa de apoio. Curioso. Se uma atividade é tão lucrativa quanto se proclama nas reportagens sobre safra recorde, por que precisa de juro abaixo do mercado para comprar o próprio tear? A resposta é sempre a mesma, embora ninguém a diga em voz alta: porque ninguém recusa dinheiro de graça quando há um balcão aberto oferecendo. O que se chama de política pública é, na essência, um arranjo entre quem governa, quem produz em escala e quem fabrica os bens de capital. Os três se abraçam, posam para a foto, e dividem o butim. O resto da nação assiste pela televisão, achando que está sendo beneficiado.

O nome técnico disso, nos manuais, é socialização dos custos e privatização dos lucros. O nome popular é mais curto e mais honesto: roubo bem vestido. Funciona porque vem embrulhado em palavras nobres como modernização, produtividade, competitividade global. Funciona porque vem com cenário de máquina amarela reluzente, e máquina amarela reluzente impressiona qualquer um, especialmente o eleitor que confunde investimento privado com bondade do governo. A lógica é elementar: se o sujeito de gravata anuncia bilhões e há aplauso, então alguma coisa boa deve estar acontecendo. A coisa boa, contudo, está acontecendo apenas para um lado bem específico do balcão.

Pergunte a si mesmo, antes de comprar o discurso, uma única coisa: se o crédito é tão maravilhoso, por que não é oferecido pelo banco privado nas mesmas condições? A resposta vai te dizer tudo o que você precisa saber sobre quem realmente sustenta a Agrishow, o palanque, o sorriso e a colheitadeira novinha em folha. Não é o Estado generoso. É você, todo santo dia, em cada nota fiscal, em cada centavo a menos no poder de compra do próximo mês. O rei está nu, e o trator dele é financiado.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.