A cena tem algo de tragicomédia provinciana. Um juiz eleitoral chamado Tiago Machado assina, na segunda-feira 25, o despacho que confirma a expulsão de Aldo Rebelo dos quadros do Democracia Cristã, e o Tribunal Superior Eleitoral formaliza a retirada do sujeito da ficha. Pare e respire. Estamos falando de um homem que foi ministro de quatro presidentes, candidato à prefeitura de São Paulo, presidente da Câmara dos Deputados, figurinha permanente do noticiário político por três décadas, sendo posto na rua por uma sigla que disputa com o PRTB e o Agir o pódio das legendas que ninguém sabe explicar a sopa de letrinhas. Quando até o nanico te enxota, o constrangimento histórico é digno de moldura.
Convém lembrar a trilha. Aldo começou no PCdoB, partido comunista de obediência albanesa nos áureos tempos de Enver Hoxha, e migrou para uma carreira ministerial que atravessou Sarney, Lula, Dilma e Temer com a elasticidade de um contorcionista de circo. Foi ministro da Coordenação Política, dos Esportes, da Ciência e Tecnologia, da Defesa. Cada cadeira, um salário público. Cada salário público, um cheque assinado pelo contribuinte que nunca foi consultado sobre se queria pagar a peregrinação ideológica do moço. De camarada de Stálin a admirador de Bolsonaro em pouco mais de uma década, o currículo tem a coerência de um cardápio de boteco que serve sushi e feijoada na mesma página.
E aqui mora a piada que o Democracia Cristã, sem querer, ajudou a contar. Partido no Brasil não é projeto, é balcão. O Fundo Partidário despejou mais de um bilhão de reais nas siglas em 2025, dinheiro que sai do seu bolso por meio do imposto que você paga sem ter votado em ninguém daquilo, e o Fundo Eleitoral despeja outros bilhões a cada disputa. As legendas existem porque essa torneira existe, e brigam por aluguel de tempo de TV, por candidatura proporcional, por fatia do butim. Quando uma sigla microscópica resolve cortar relações com um ex-ministro de quatro governos, não é por princípio, é porque o cálculo de fatura mudou. Alguém pesou, alguém decidiu que o passageiro custava mais caro do que rendia. Fim do mistério.
Pegue a régua e meça. Se julgarmos o político pelo que ele faz, e não pela retórica patriótica que destila quando lhe convém, o que temos diante dos olhos é um profissional que transformou a flexibilidade ideológica em método de sobrevivência. Defendeu a foice e o martelo, defendeu a Amazônia para inglês ver, defendeu a soberania nacional enquanto recebia salário do Estado que tributa a soberania do indivíduo, e agora paga o preço de quem confunde longevidade com relevância. A premissa maior é simples. Quem vive de ocupar cargo público depende da boa vontade alheia. A premissa menor, igualmente óbvia. A boa vontade alheia evapora quando o sujeito deixa de ser útil. A conclusão dispensa silogismo, qualquer um chega nela sem ajuda.
O detalhe saboroso é que a expulsão chega via Judiciário. Para retirar o nome de um cidadão de um partido, foi preciso despacho de juiz eleitoral, oficialização do TSE, máquina pública mobilizada para resolver disputa interna de uma associação privada que, no fundo, deveria poder admitir e expulsar quem bem entendesse sem chamar o Estado para arbitrar a briga. Mas no Brasil até a porta dos fundos do clubinho ideológico passa pelo cartório oficial, porque o partido não é entidade civil de verdade, é concessionária estatal disfarçada. Quem paga a conta da disputa? Você, naturalmente. Quem colhe os frutos? Os burocratas que vivem de processar o que jamais deveria ter virado processo.
A moral da história, se há alguma, é a de sempre. O personagem é menos importante do que o palco. Aldo entra ou sai, e o circo continua intacto, alimentado pela mesma mamadeira fiscal que sustenta a próxima geração de Aldos. Trocar o nome do passageiro não muda o ônibus, e o ônibus segue rodando às nossas custas. Rir do episódio é higiênico. Indignar-se com o sistema é necessário. Confundir uma coisa com a outra é o que mantém tudo igual há trinta anos.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.