O presidente da República, em rasgo de sinceridade ou de cálculo eleitoral (na política, raramente se distingue uma coisa da outra), subiu ao palanque na Fiocruz e classificou a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro como uma espécie de "milícia organizada". A Casa, devidamente escandalizada, redigiu nota cerimoniosa exigindo "respeito às instituições" e cobrando do chefe do Executivo a mesma compostura que ela mesma, diga-se, raramente dispensa aos contribuintes que a sustentam. O quadro tem aquela graça involuntária do bandido que, ao ser chamado de bandido por outro bandido, recorre ao código de ética dos cavalheiros.

Convém, antes de qualquer coisa, fazer a pergunta que ninguém faz nessas trocas de gentilezas: quem paga essa farra toda? O carioca que acorda às cinco da manhã, pega dois ônibus, deixa o filho em creche precária e ainda assim entrega quase metade do que ganha em tributos diretos e indiretos. É esse sujeito, anônimo e cansado, que custeia simultaneamente o avião presidencial que aterrissa na Fiocruz para o discurso e o salário, a verba de gabinete, a aposentadoria principesca e o auxílio paletó dos deputados estaduais que se dizem ofendidos. Os dois lados da pendenga vivem do mesmo bolso, e esse bolso não está representado em nenhuma das notas oficiais.

A lógica do episódio é simples e brutal. Se um cidadão comum chama uma assembleia de milícia, é processado por difamação e arrasta-se por anos no Judiciário. Se o ocupante do Planalto faz a mesma acusação, gera manchete e nota de repúdio, mas nenhuma consequência prática. E se a Alerj realmente abriga, como há fartas evidências documentais e judiciais nas últimas décadas, parlamentares com vínculos turvos junto a grupos paramilitares, então a acusação presidencial não é insulto, é diagnóstico. O constrangimento da Casa, nesse caso, não vem da injustiça da fala, mas do incômodo da exatidão. Acertou na ferida e a ferida gritou.

O detalhe pitoresco é o vocabulário. "Respeito às instituições" virou o salvo conduto universal de toda casta política brasileira sempre que alguém aponta o óbvio. Funciona como aquelas vestes litúrgicas que escondem o corpo do sacerdote: o ritual é tão pomposo que ninguém ousa perguntar se ali dentro há mesmo alguma santidade. As instituições, repita se for preciso, não merecem respeito por serem instituições, merecem respeito quando cumprem a função para a qual o contribuinte as financia. Uma assembleia que delibera contra o pagador de impostos, que aprova reajustes para si mesma em sessões de quinze minutos e que cultiva relações nebulosas com o poder paralelo, não compra reverência com papel timbrado.

Por outro lado, e aqui o humor da cena se completa, o acusador também não tem credenciais morais para o sermão. Quem governa por meio de medidas provisórias, infla a máquina, distribui ministérios como prêmios de tômbola e trata o Orçamento como espólio de campanha, tampouco está em posição de dar lições sobre conduta institucional. O que se vê é o velho jogo das oligarquias rivais disputando o butim e, no intervalo, trocando ofensas para entreter a plateia. Antigamente as facções romanas se enfrentavam no Circo Máximo com cavalos e bigas; hoje se enfrentam em coletivas, e o ingresso continua sendo cobrado do mesmo povo que assiste de longe, sem direito a apostar.

A conclusão é tão antiga quanto desconfortável. Quando dois grupos que vivem do dinheiro alheio discutem entre si qual deles tem mais autoridade moral, a resposta honesta é nenhum dos dois. O contribuinte fluminense, espremido entre uma assembleia que o ignora e um presidente que o usa como adereço retórico, deveria aproveitar o momento raro de transparência para fazer a única pergunta que importa: por que, afinal, continuo pagando por esse espetáculo? No dia em que essa pergunta deixar de ser retórica e virar política, a nota oficial da Alerj vai parecer, em retrospecto, o que sempre foi, um pedido de desculpas mal disfarçado.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.