O comunicado oficial saiu com a pompa de sempre, alerta vermelho, perigo iminente, risco de alagamentos, ventania, queda de árvores e apagões em vastas áreas do Norte e do Nordeste neste domingo, 26. Traduzindo do dialeto burocrático para o português do cidadão que paga a conta, vai chover forte, como chove há séculos no Brasil tropical, e o aparato estatal, com seus radares, satélites, ministérios e secretarias, conseguiu o feito notável de informar com algumas horas de antecedência aquilo que qualquer pescador do Marajó adivinha pelo cheiro do vento. Aplausos.

O detalhe que o boletim não menciona, e que nenhum jornalista de redação climatizada vai perguntar, é onde foi parar o dinheiro da prevenção. Existe Defesa Civil municipal, estadual e federal, existe fundo de calamidade, existe verba de drenagem urbana, existe programa de contenção de encostas, existe dotação de macrodrenagem, existe orçamento de assistência a vítimas. Bilhões anuais, somados os três níveis. E no entanto, a cada temporal previsível, o noticiário se enche das mesmas imagens, a mesma família em cima do telhado, o mesmo carro boiando, a mesma idosa sendo resgatada de canoa em rua que deveria ter bueiro. A obra não saiu, mas o empenho saiu. Alguém recebeu, ninguém entregou, e o contribuinte, esse otário cordial, paga duas vezes, no imposto e no prejuízo.

Há uma lógica simples e cruel que ninguém quer enxergar. Se o serviço fosse de fato preventivo, ele acabaria com a clientela. Drenagem que funciona não rende foto de helicóptero do governador sobrevoando a tragédia. Encosta contida não vira palanque para promessa de reconstrução. Sirene que toca a tempo não justifica a criação de mais um cargo comissionado para coordenar comitê de gestão de risco. O incentivo de quem vive do desastre é que o desastre continue acontecendo, controlado o bastante para não derrubar prefeito, intenso o bastante para garantir o próximo aporte emergencial, dispensa de licitação incluída.

Note a beleza do arranjo retórico. Quando o céu desaba, a culpa é das mudanças climáticas, entidade abstrata, planetária, contra a qual nenhum vereador pode ser responsabilizado. Quando o sol volta, a competência é da gestão, que reagiu rápido, mobilizou equipes, distribuiu cestas básicas. Cara, ganho eu; coroa, perde você. É o cassino mais antigo do mundo, só que com farda, brasão e discurso de servidor público. E o pior, o cidadão aplaude o resgate sem perguntar por que precisou ser resgatado, agradece a cesta sem reparar que a cesta veio do bolso dele mesmo, transformada em caridade oficial pela alquimia do carimbo.

A chuva é o que sempre foi, fenômeno natural, indiferente a comunicado, a ministério, a alerta laranja ou vermelho. O que mudou foi o homem, que antes construía sua casa em terreno alto porque ninguém lhe prometia salvação, e hoje constrói na várzea porque acredita que o Estado o tirará de lá. A promessa cria o risco, o risco cria a tragédia, a tragédia cria o orçamento, o orçamento cria o cargo, o cargo cria o discurso, e o discurso, generosamente, anuncia que vai chover. Bem-vindo ao ciclo perfeito.

Proteja-se, sim, mas não do temporal apenas. Proteja-se da ideia, cuidadosamente plantada há gerações, de que a nuvem é problema do governo e que sua segurança depende de um boletim oficial. Telhado bom, calha limpa, terreno firme e desconfiança saudável valem mais que qualquer aplicativo de monitoramento patrocinado com seus impostos. O céu não obedece a decreto, e essa, talvez, seja a única boa notícia do domingo.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.