A Arábia Saudita voltou a soar alarme sobre a escalada no Iêmen, e não é preciso ser estrategista de Pentágono para entender o motivo: o petróleo que abastece metade do mundo continua passando por corredores marítimos que qualquer garoto com um drone iraniano de dois mil dólares consegue interditar. O Bab el-Mandeb, aquele estreito ridículo entre o Chifre da África e a Península Arábica, é a jugular por onde escoa uma fatia colossal do óleo que faz o caminhão chegar no supermercado, o avião decolar e o preço da gasolina não explodir na bomba. E essa jugular está exposta há anos, sob a mira de uma milícia que ninguém quis desmontar quando era barato desmontar.

Repare no roteiro, porque ele se repete com precisão de relógio suíço. Um regime tribal armado até os dentes por procuração iraniana começa a atacar navios mercantes. As potências ocidentais soltam nota de repúdio, mandam três fragatas, disparam alguns mísseis caríssimos contra alvos baratos, declaram vitória e vão embora. Semanas depois, os ataques recomeçam. O seguro marítimo dispara, as rotas são desviadas contornando toda a África, o frete triplica, e essa conta, sem exceção, cai no consumidor final que não votou em nada disso e nem sabe onde fica o Iêmen no mapa. É a velha janela quebrada travestida de política externa: destruição não gera riqueza, ela redistribui pobreza.

Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais interessante. Quem lucra com um Mar Vermelho instável? As petroleiras estatais que operam rotas alternativas, os estaleiros que se beneficiam de contratos de defesa emergenciais, os fundos que apostam em volatilidade do barril, as empresas de segurança marítima privada que cobram fortunas para escoltar cargueiros, e claro, o próprio regime iraniano, que usa a crise para negociar sanções e vender petróleo com desconto para chineses famintos. O consumidor médio, aquele sujeito que enche o tanque no posto da esquina, é o único personagem dessa peça que só paga e nunca recebe. É sempre assim quando o Estado, qualquer Estado, decide que geopolítica é assunto de gabinete e não de responsabilidade fiscal.

E aqui entra a parte que ninguém no noticiário quer discutir: a fragilidade dessa rota é resultado direto de décadas de intervenção ocidental mal calibrada no Oriente Médio, seguida de retirada apressada, seguida de aliança envergonhada com os mesmos regimes que financiaram o problema original. A ordem que emerge do caos regional não foi planejada por burocrata algum em Washington ou Bruxelas; ela brota espontaneamente das escolhas de milhares de atores locais, cada um respondendo a incentivos concretos que ninguém no ar-condicionado do Foreign Office se dá ao trabalho de mapear. Quando você tenta redesenhar uma região inteira de cima para baixo com bombas inteligentes e ONGs, o que você produz é exatamente isto: milícias armadas cobrando pedágio no comércio mundial.

O detalhe cômico, se é que existe comédia nessa tragédia, é que enquanto os houthis atiram foguetes em petroleiros, os mesmos governos europeus que decretaram guerra ao combustível fóssil correm feito baratas tontas para garantir que os navios cheguem aos seus portos. A transição energética funciona muito bem no PowerPoint das COPs; na hora que o barril passa de cem dólares porque um estreito ficou intransitável, a virtude ambiental evapora e o cálculo político volta a ser: como impedir que meu eleitor pague dez euros pelo litro na próxima terça-feira. Hipocrisia, quando institucionalizada, se chama política pública.

A lição, se alguém quiser aprender, é antiga e desconfortável: o preço de tudo o que você consome depende de uma teia frágil de rotas, contratos e acordos tácitos que o Estado moderno finge controlar mas na verdade apenas atrapalha. Cada nova regulação do comércio marítimo, cada nova sanção mal desenhada, cada novo tratado climático que encarece o transporte, empilha custo sobre um sistema que já opera no fio da navalha. E quando o fio arrebenta, não é o ministro que vai à padaria pagar o pão mais caro. Você vai. Sempre você.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.