Alexandre Pato, que um dia foi promessa do futebol brasileiro e hoje é promessa do marketing de quinquilharia digital, apareceu em vídeo promovendo um sorteio de privada de ouro. Leia de novo, devagar, porque a frase merece ser saboreada em toda a sua decadência: uma privada de ouro. Junto vem um certificado de barra de ouro de quarenta mil reais, resultado em julho, tudo vinculado a um daqueles jogos on-line que proliferam na internet como fungo em parede úmida. O ex-atacante, que driblava zagueiros em San Siro, agora dribla a vergonha diante de uma câmera para convencer brasileiros a apostar numa plataforma que transforma tempo e dinheiro em nada.

A pergunta que ninguém faz, porque a estupidez coletiva anestesia a curiosidade, é simples: quem financia uma privada de ouro para dar de graça? Ninguém dá nada de graça. O sorteio existe porque milhares, talvez milhões de pessoas vão baixar o aplicativo, gastar horas e reais dentro de um jogo projetado para viciar. O prêmio reluzente é a isca; o peixe é você. O custo daquela privada dourada está diluído em centavos extraídos de cada jogador que acha que a sorte vai bater na sua porta. É o velho truque do camelô que oferece um relógio de brinde para quem comprar três cintos: o relógio já estava no preço dos cintos desde o começo.

Há algo particularmente obsceno em escolher uma privada como troféu aspiracional num país onde trinta e cinco milhões de pessoas não têm saneamento básico. Enquanto famílias inteiras defecar a céu aberto é rotina em periferias e zonas rurais, o entretenimento nacional consiste em assistir um milionário exibir um vaso sanitário folheado a ouro como se fosse o Santo Graal. Não é ironia; é diagnóstico. O Brasil sempre teve uma relação doentia com o ouro, desde que os portugueses arrancaram toneladas de Minas Gerais e mandaram para Lisboa. Agora o ouro volta em forma de privada, e a colônia aplaude.

O mecanismo é tão velho quanto o jogo de azar em si. Você cria um prêmio espalhafatoso o suficiente para gerar manchete, vincula a uma plataforma que extrai dinheiro por microtransações, contrata uma celebridade para emprestar o rosto, e espera que a ganância natural do ser humano faça o resto. É engenharia de extração de renda na sua forma mais pura: quem opera a plataforma fica com a receita previsível e constante; quem joga fica com a esperança, que é o produto mais barato de fabricar e mais caro de comprar. O certificado de barra de ouro de quarenta mil reais é a cereja do bolo, um pedaço de papel que representa um metal que o ganhador provavelmente nunca vai tocar. Certificado, não a barra. A diferença entre um e outro é a mesma diferença entre promessa de político e realidade.

Pato não é vilão nem vítima. É sintoma. Quando um país inteiro aceita que seus ídolos esportivos virem mascotes de cassino digital sem que ninguém levante uma sobrancelha, o problema não está no jogador aposentado que precisa pagar as contas. O problema está numa cultura que substituiu mérito por espetáculo, trabalho por aposta, e dignidade por likes. A privada de ouro é, no fundo, a metáfora perfeita para onde vai o dinheiro de quem acredita em sorteio: direto para o ralo, com acabamento premium.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.