Alexandre Ramagem foi preso em Orlando pelo serviço de imigração dos Estados Unidos. Deixe isso assentar por um momento. O homem que durante anos dirigiu a Agência Brasileira de Inteligência, um aparato de espionagem mantido com dinheiro arrancado de cada contribuinte brasileiro via imposto, um mecanismo cujo propósito declarado é rastrear, vigiar e monitorar pessoas consideradas ameaça ao Estado, foi detido por irregularidade migratória. A ironia não é poética por acidente. É estrutural.
Existe uma lógica implacável no destino de quem passa a vida inteira dentro do aparato de coerção estatal. Você aprende a ver o Estado como seu instrumento pessoal. Aprende a confundir a máquina pública com sua propriedade privada. Aprende que as regras, aquelas burocracias insuportáveis que sufocam o cidadão comum, existem para os outros. Para os agentes do poder, há sempre uma exceção, um atalho, uma interpretação conveniente. Até que você atravessa a fronteira errada e descobre que outro Estado, igualmente burocrático e igualmente implacável, não recebeu o memorando sobre a sua importância.
Ramagem não é personagem isolado. É tipo. É o arquétipo do operador de inteligência que habita todos os regimes, de todos os matizes ideológicos, em todos os continentes. O homem que sabe demais sobre todos, que negocia informação como moeda, que acredita que o conhecimento privilegiado sobre a vida alheia lhe confere uma espécie de imunidade diplomática informal. Nos impérios da Antiguidade, esses personagens terminavam decapitados justamente porque sabiam demais. Hoje terminam presos por visto irregular na Flórida, o que é, convenhamos, uma forma bem mais modesta de queda.
O que o contribuinte brasileiro financiou durante os anos em que Ramagem comandou a ABIN é uma pergunta que a imprensa faz com seletiva intermitência. A agência custa centenas de milhões de reais por ano. Tem quadros, tecnologia, infraestrutura, capacidade operacional. Tem a capacidade, já documentada em investigações em curso, de ser redirecionada para fins que nada têm a ver com a segurança nacional e tudo a ver com a segurança política de determinados grupos. Quem pagou? O brasileiro que acorda às cinco da manhã para trabalhar. Quem recebeu? A pergunta permanece sem resposta satisfatória, que é exatamente como os beneficiários preferem.
Há um silogismo simples que a narrativa dominante insiste em embaralhar. Primeiro: todo poder do Estado emana do Estado e retorna ao Estado. Segundo: quem serve ao Estado como instrumento de poder vive sob a proteção desse mesmo Estado e perece sem ela. Conclusão: ao sair da proteção de seu Estado de origem e entrar no território de outro, Ramagem deixou de ser agente e passou a ser objeto, da mesma maneira que qualquer imigrante sem documentação em ordem. A diferença é que quando o imigrante comum é preso pelo ICE, ninguém chama de perseguição política.
O episódio tem, portanto, uma pedagogia involuntária que nenhuma escola de ciência política ensinaria com tanta eficiência. O Estado não tem lealdade pessoal. O Estado tem função, e quando você deixa de ser funcional, ou quando cruza para a jurisdição de outro Estado, você vira estatística. Ramagem passou décadas acreditando que estava acima disso. Orlando, numa segunda-feira qualquer, o corrigiu com a brutalidade deliciosa da realidade. O rei estava nu, viajava de forma irregular, e o ICE não leu o currículo.
Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.