Prestem atenção ao que acontece em Shark Bay, no oeste da Austrália, porque a notícia é dessas que passam despercebidas pela maioria e iluminam tudo para quem tem olhos de ver. Entre sal, lama e rochas que parecem mortas, tapetes microbianos e estromatólitos preservam o registro de um processo que começou há bilhões de anos: a transição da vida simples para a vida complexa. E o detalhe que deveria envergonhar todo burocrata de Brasília a Bruxelas é este: essa transição não aconteceu por decreto, por regulação, por meta de desenvolvimento sustentável ou por programa de fomento. Aconteceu por cooperação voluntária entre organismos microscópicos que jamais leram uma portaria do Diário Oficial.

O que os pesquisadores encontram naquele canto esquecido do planeta é uma aliança íntima entre micróbios diferentes, cada um fazendo o que faz melhor, trocando recursos sem intermediário, sem fiscal, sem agência reguladora definindo quem pode se associar a quem. Um produz o que o outro precisa, o outro retribui com o que o primeiro não consegue sozinho, e dessa troca espontânea nasce algo maior do que as partes. Isso, senhoras e senhores, é a divisão de trabalho funcionando há três bilhões e meio de anos, muito antes de qualquer parlamento decidir que sabe melhor do que você como organizar a sua vida. A natureza resolveu o problema da complexidade do mesmo jeito que o padeiro resolve o do pão: não por bondade, não por altruísmo decretado, mas porque a cooperação livre produz resultados que nenhum planejador central jamais conseguiria sequer imaginar.

Agora façam o exercício mental que nenhum editorial da grande imprensa vai propor. Se a vida complexa surgiu de associações voluntárias entre organismos que sequer tinham cérebro, o que exatamente nos autoriza a acreditar que precisamos de um aparato estatal monstruoso para coordenar seres humanos dotados de razão e linguagem? O estromatólito não tem comitê de planejamento. O tapete microbiano não cobra imposto de um organismo para subsidiar outro. Não existe ali um micróbio-burocrata que decide quais alianças são permitidas e quais precisam de licença ambiental. E, no entanto, o resultado é tão robusto, tão resiliente, que sobreviveu a eras glaciais, a meteoritos, a extinções em massa. Sobreviveu a tudo, menos, aparentemente, à capacidade do homem moderno de tirar a lição errada.

Porque a lição que a ciência subsidiada invariavelmente tira desses achados é que precisamos de mais pesquisa financiada com dinheiro público, mais institutos, mais agências de fomento, mais convênios internacionais, mais conferências em hotéis cinco estrelas para discutir como a natureza se organiza espontaneamente. Percebam a ironia que corta como navalha: usam o exemplo máximo de ordem espontânea para justificar mais ordem imposta. É como estudar o voo dos pássaros para concluir que precisamos de mais aeroportos estatais. A pergunta que não fazem, porque a resposta destruiria a justificativa do próprio emprego, é simples: se a cooperação livre gerou toda a complexidade biológica do planeta, por que diabos a cooperação livre entre seres humanos precisaria de um ministério para funcionar?

Shark Bay é um espelho. Mostra o que éramos antes de inventarmos a ficção de que alguém precisa nos governar para que cooperemos. Mostra que a ordem não vem de cima, vem de baixo, vem das trocas, vem do interesse mútuo, vem da liberdade de cada parte buscar o que é melhor para si e, ao fazer isso, construir algo que nenhum comitê central planejaria. Três bilhões de anos de evidência empírica contra a arrogância de quem acha que uma canetada resolve o que a liberdade já resolveu sozinha. Mas, claro, nenhum micróbio de Shark Bay tem cargo comissionado, verba de gabinete ou foro privilegiado. Talvez por isso tenham sobrevivido tanto tempo.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.