Toda semana, sem falta, algum veículo de imprensa publica sua lista de receitas saudáveis e leves para você organizar a rotina alimentar. O ritual é tão previsível quanto o calendário litúrgico: segunda-feira, culpa do fim de semana; terça, promessa de mudança; quarta, a lista de receitas salvadoras. O que ninguém pergunta, em nenhum momento desse ciclo edificante, é de onde vêm os critérios que definem o que é "saudável". Quem estabeleceu a pirâmide alimentar? Quem financiou os estudos que condenaram a gordura saturada nos anos setenta e agora a reabilitam com o mesmo entusiasmo científico? A resposta, invariavelmente, tem CNPJ.

A indústria alimentícia moderna é uma das maiores obras de engenharia comportamental da história econômica recente. Ela não vende apenas comida; vende ansiedade, culpa e redenção, nessa ordem, com margem de lucro em cada etapa. Primeiro financia décadas de pesquisa demonizando a gordura animal, o que empurrou meio mundo para o consumo de carboidratos refinados e óleos vegetais industrializados. Depois, quando a epidemia de obesidade e diabetes chegou no nível que não dava mais para esconder, financiou a próxima onda de estudos recomendando exatamente os produtos que ela já havia posicionado nas prateleiras como alternativas: grãos integrais certificados, proteínas vegetais processadas, laticínios com o gordura removida e substituída por açúcar. O bisturi sempre corta no lugar que não prejudica o cirurgião.

O Estado, como de costume, não ficou de fora do negócio. As agências regulatórias de alimentos em praticamente todo o mundo ocidental foram construídas sobre a promiscuidade estrutural entre o regulador e o regulado. Os mesmos executivos que passam anos nas diretorias das grandes processadoras de alimentos migram para os conselhos técnicos que definem o que pode ser chamado de "funcional", "integral" ou "nutritivo" nos rótulos. Não é corrupção no sentido vulgar, de envelope com dinheiro. É algo mais sofisticado e mais duradouro: é a captura institucional, em que a burocracia e a indústria se tornam indistinguíveis, falam a mesma língua técnica e partilham o mesmo mapa de interesses. Você paga o salário do regulador pelo imposto, e o regulador trabalha para quem o empregará depois.

A receita de frango grelhado com legumes no vapor que vai salvar sua semana não é inocente. O frango que você compra hoje é produto de décadas de subsídios agrícolas que consolidaram o oligopólio avícola, eliminaram o pequeno produtor familiar e criaram uma cadeia produtiva tão dependente de antibióticos e rações industriais que seria irreconhecível para qualquer geração anterior. Os legumes vêm de um sistema de distribuição subsidiado, com câmaras frias financiadas por crédito público a juros negativos, que beneficia os grandes atacadistas e torna o pequeno hortifrúti de bairro economicamente inviável. Quando você segue a receita "saudável e leve", você não está exercendo autonomia alimentar; você está executando o último passo de uma cadeia produtiva inteiramente moldada por decisão política e dinheiro público transferido para mãos privadas específicas.

A lógica é simples e devastadora: se o Estado não tivesse o poder de definir o que é comida saudável por decreto regulatório, se não houvesse subsídios distorcendo preços relativos, se não existissem barreiras de entrada que protegem os grandes processadores da concorrência de produtores menores e mais honestos, o mercado de alimentos seria radicalmente diferente, e provavelmente mais honesto. A "receita saudável" da semana seria o produto de escolhas genuínas, informadas por oferta real e competição de verdade, e não o reflexo de quarenta anos de política alimentar construída no interesse de quem paga o lobby. Mas isso não dá pauta de conteúdo para uma terça-feira de janeiro, então seguimos com as cinco dicas de almoço equilibrado.

No fim, a questão não é se o frango grelhado faz bem ou mal. A questão é que você nunca vai saber ao certo, porque toda informação disponível sobre o assunto passou por um filtro financiado por alguém que tem interesse no que você decide comer. O Estado garante que esse filtro seja o único legítimo, criminaliza a concorrência no mercado de conselhos nutricionais por meio do monopólio regulatório dos conselhos profissionais, e depois lava as mãos chamando o resultado de saúde pública. Quem paga é você, no imposto, no preço do supermercado e na consulta ao nutricionista credenciado. Quem recebe é a cadeia que construiu o sistema. Bom apetite.

Com informações d'O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.