Na segunda-feira, dia 25, a Amazon Prime Video despachou ao narrador o bilhete que ninguém da velha guarda da Globo imaginava receber: rescisão antecipada, agradecemos os serviços, devolva o crachá. O contrato, assinado no fim de 2024 com validade até dezembro de 2027, foi rasgado pela metade. Não houve escândalo moral, não houve cancelamento por tuíte, não houve comissão parlamentar. Houve algo muito mais cruel e muito mais saudável: alguém puxou a calculadora, olhou o retorno sobre o investimento e concluiu que o produto não vendia o que custava. O rei, descobriu-se, narrava sem audiência.
Convém entender o tamanho da queda. Estamos falando do homem que por quatro décadas foi a trilha sonora oficial das emoções autorizadas do brasileiro, o sujeito cuja voz a estatal travestida de emissora privada vendia como patrimônio nacional. A cada Copa, a cada Fórmula 1, o cidadão pagava duas vezes: na conta de luz que sustenta o oligopólio das comunicações via concessão pública, e no preço embutido do sabão em pó anunciado no intervalo. Quando esse mesmo cidadão ganhou o direito de não pagar, ou seja, quando a tecnologia permitiu que ele simplesmente desligasse, o encanto evaporou. Encantamento subsidiado dura enquanto dura o subsídio.
A Amazon não é uma ONG, nem uma fundação cultural, nem um ministério da identidade nacional. É uma empresa que opera num mercado onde o consumidor clica e some, clica e cancela, clica e migra. Contratou o narrador imaginando comprar a aura construída por décadas de monopólio de espectro eletromagnético, e descobriu, na dura aritmética dos relatórios trimestrais, que aura não se transfere por contrato. Aura é externalidade do arranjo institucional que a produziu. Tira o arranjo, some a aura. Sobra um senhor de voz cansada repetindo bordões de 1994 enquanto o algoritmo recomenda outra coisa.
Há nisso uma lição que os apologistas da regulação cultural fingem não enxergar. Por gerações fomos doutrinados a acreditar que certas figuras eram insubstituíveis, que certos talentos transcendiam a vulgaridade da oferta e da procura, que havia uma esfera nobre da comunicação onde o mercado não devia meter o bedelho. Mentira solene, das mais bem pagas. O que sustentava a suposta imortalidade desses ícones era a reserva de mercado, a outorga estatal, o cartel publicitário, a barreira de entrada artificial que mantinha o competidor longe e o consumidor refém. Aberta a porteira, mesmo que parcialmente, o gado escolheu outro pasto.
Siga o cheque e você terá a história inteira. Quem pagava o salário milionário da era dourada? O anunciante, que repassava ao consumidor cativo, que pagava sem saber porque não tinha alternativa. Quem paga hoje o streaming? O assinante, voluntariamente, mês a mês, com o dedo a um milímetro do botão de cancelar. São lógicas econômicas opostas, e produzem resultados opostos. A primeira premia a longevidade institucional, o sobrenome certo, o pertencimento ao clube. A segunda premia uma coisa só, prosaica e implacável: entregar valor superior ao preço cobrado, hoje, neste trimestre, neste relatório. Se não entrega, rua.
Que sirva de aviso a toda a constelação de figuras públicas que ainda confundem prestígio herdado com produtividade atual, dos âncoras aos burocratas, dos comentaristas aos ministros, dos artistas subsidiados aos jornalistas do consenso. Enquanto o pagador for cativo, o emprego é vitalício e o talento é genial. No instante em que o pagador puder dizer não, descobre-se que metade da genialidade era marketing institucional e a outra metade era reserva de mercado. A planilha não tem ideologia, não tem nostalgia, não tem hino. Tem coluna de receita e coluna de despesa. E quando a segunda supera a primeira, o contrato vira pó, ainda que o narrador, no fundo, continue achando que é gol do Brasil.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.