Trezentos e vinte e nove milhões de reais evaporaram em noventa dias e a empresa publica o balanço com o ar de quem trouxe boas novas. A receita líquida subiu vinte por cento, três bilhões e oitenta milhões circularam pelo caixa, e ainda assim o saldo final é vermelho do tamanho de um pequeno município. Traduzindo o economês para o português dos mortais: vendeu mais, perdeu rios de dinheiro, e os relatórios oficiais tratam isso como progresso. É o tipo de aritmética que só faz sentido quando o objetivo não é lucrar, mas sustentar o teatro até que alguém, em algum lugar, pague a diferença.
Convém lembrar a origem do espetáculo. Em 2023, descobriu-se um rombo contábil de vinte bilhões, fraude grosseira, anos de balanços maquiados, executivos premiados com bônus calculados sobre lucros que nunca existiram. Acionistas bilionários juraram que não sabiam de nada, como se fossem turistas perdidos no próprio império. Nenhum deles passou uma noite na cadeia. Os credores menores, fornecedores que entregaram mercadoria de boa fé, esses sim foram à lona. E agora, dois anos depois, a mesma empresa anuncia que está se recuperando, e a imprensa repete o comunicado oficial como quem traduz boletim do Vaticano.
A trilha do dinheiro, no entanto, não mente. Para a Americanas voltar a funcionar foi preciso uma recuperação judicial generosíssima, deságios de até oitenta por cento sobre dívidas com pequenos fornecedores, conversão forçada de créditos em ações que valem o que o vento levou, e uma injeção bilionária dos próprios controladores, os mesmos que alegaram desconhecer a fraude. Some a isso o financiamento bancário facilitado, a tolerância do fisco, e o silêncio cúmplice das instituições que deveriam fiscalizar. Cada real desse arranjo veio do bolso de alguém: do fornecedor que faliu, do credor que aceitou centavos pelo real, do consumidor que paga preço inflado para sustentar margens insustentáveis, do contribuinte que banca o sistema que protege os grandes e tritura os pequenos.
Há uma lei antiga, anterior a qualquer manual de contabilidade, que diz o seguinte: aquilo que se ergue sobre fraude não se sustenta pela verdade. Roma não caiu porque os bárbaros eram fortes, caiu porque a moeda foi diluída até virar pó, porque o pão e o circo custavam mais do que o império produzia, porque os senadores fingiam não ver o óbvio. A Americanas é um microcosmo dessa dinâmica. Uma estrutura que perde dinheiro vendendo, que existe pela inércia do sistema financeiro e pela complacência do regulador, que sobrevive porque ninguém em posição de poder tem coragem de decretar o óbvio: a empresa quebrou, foi fraudada por dentro, e merece a sepultura honesta que se nega aos comerciantes de bairro.
O que se chama de recuperação é, na prática, uma socialização disfarçada das perdas. Os ganhos foram privatizados durante a fraude, distribuídos em bônus, dividendos, salários estratosféricos. As perdas, descobertas a fraude, são empurradas para baixo, para os lados, para o futuro. O fornecedor pequeno engole o calote e fecha as portas. O credor médio aceita centavos. O empregado demitido vira estatística. E os grandes nomes continuam nas mesmas mesas, nos mesmos jantares, nas mesmas listas de mais ricos do país. A justiça, essa entidade abstrata que deveria igualar os homens diante da lei, treme as pernas quando o réu tem patrimônio de dez dígitos.
Resta a pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta. Quem paga e quem recebe? Paga o trouxa que acreditou no balanço, o fornecedor que entregou a mercadoria, o pequeno acionista que comprou na alta, o contribuinte que sustenta o aparato que blindou os culpados. Recebem os mesmos de sempre, os que sabiam, os que lucraram durante a fraude, os que agora reaparecem como salvadores da pátria empresarial. Trezentos e vinte e nove milhões de prejuízo num trimestre não é sinal de recuperação. É a fatura ainda aberta de uma roubalheira que ninguém teve a coragem de chamar pelo nome.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.