Na quinta-feira passada, o foguete New Glenn, joia da coroa da Blue Origin, transformou uma plataforma de lançamento da Flórida num espetáculo pirotécnico não programado. O teste de ignição estática, que na teoria deveria apenas acender os motores sem tirar a nave do chão, decidiu encurtar caminho e tirar tudo do chão de uma vez só. A empresa, claro, falou em "anomalia". É uma palavra elegante para "torramos uns bons milhões em segundos e ninguém quer admitir". O dono do espetáculo, o cidadão mais rico de uma das prateleiras da Forbes, observa o churrasco caríssimo do conforto de sua mansão, enquanto o público é convidado a aplaudir a coragem do empreendedor espacial.

Convém lembrar uma coisinha que a imprensa engasgada de admiração costuma esquecer: a Blue Origin não é exatamente um negócio que vive das próprias pernas. Vive, e muito bem, de contratos gordos com a NASA, com o Pentágono, com agências federais cujas siglas o cidadão comum sequer consegue decifrar. Cada parafuso daquele foguete tem o cheiro inconfundível do dinheiro arrancado do bolso do contribuinte americano, repassado em forma de contratos bilionários a um homem que já tem mais zeros na conta do que estrelas no céu que ele finge querer alcançar. A conta da explosão, no fim do dia, não sai do cofre do dono. Sai do cofre do trabalhador que paga imposto sobre a folha de pagamento para sustentar a aventura sideral do patrão.

Há uma lógica simples por trás disso, e ela é cruel quando exposta à luz. Quem assume risco com capital próprio, quebra quando erra. Quem assume risco com capital alheio, transformado em subsídio, contrato público e isenção fiscal, joga numa mesa em que a casa nunca perde. O lucro é privatizado, embrulhado em discurso de inovação e colonização de Marte. O prejuízo é socializado, embrulhado em comunicado de imprensa otimista sobre "lições aprendidas". E o coro de jornalistas que mal sabe somar duas colunas de planilha aplaude, porque é mais fácil endeusar o bilionário do que perguntar de onde vem o dinheiro que sustenta o brinquedo dele.

O paralelo histórico é antigo e nada lisonjeiro. No século dezessete, monarcas concediam cartas de monopólio a navegadores favoritos para explorar rotas comerciais, e quando o navio afundava no meio do oceano, quem ressarcia a Coroa era o camponês via imposto, não o aristocrata aventureiro. Trocou-se a vela pelo motor a hidrogênio líquido, trocou-se a Companhia das Índias por uma LLC com sede em Delaware, mas o arranjo é o mesmo. Um pequeno clube de privilegiados brinca de explorador com o suor alheio, e quando o brinquedo quebra, manda a fatura para casa. A diferença é que hoje o súdito é convidado a se emocionar com a transmissão ao vivo.

O mais saboroso da história é o contraste com a retórica oficial da empresa, que se vende como pioneira da iniciativa privada no espaço, símbolo do capitalismo audacioso, prova viva de que o setor privado faz melhor do que o Estado. Faz melhor com o dinheiro do Estado, convém completar a frase. Sem os contratos federais, sem os subsídios indiretos, sem a infraestrutura paga pelo contribuinte ao longo de décadas, esse foguete sequer sairia da prancheta. Capitalismo de verdade é aquele em que o empresário arrisca o próprio patrimônio e responde pelo próprio fracasso. O que se viu na Flórida foi outra coisa: um teatro de risco financiado por terceiros, em que o protagonista nunca paga o ingresso.

Então, antes de derramar lágrimas pelo sonho do bilionário, o cidadão de bem deveria fazer a pergunta que jornalista bem comportado não faz. Quem paga essa conta? Quem recebe esses contratos? Quanto dessa explosão será debitado da fortuna pessoal do empreendedor visionário, e quanto será diluído em rubricas orçamentárias que ninguém lê? A resposta, como sempre, está escondida em algum anexo de algum relatório que ninguém vai ler. Mas o foguete que virou pó na plataforma deixou no ar, junto com a fumaça, uma verdade que nenhum departamento de relações públicas consegue apagar. O espaço pode ser a última fronteira. O subsídio disfarçado de inovação, esse continua sendo o velho golpe de sempre.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.