A cena vendida como redenção planetária tem dois quadros pendurados na mesma parede, e cabe ao leitor decidir qual deles é mais constrangedor. No primeiro, voluntários enfileirados feito formigas obedientes recolhem detritos com sacos plásticos, transpirando virtude para as câmeras. No segundo, uma máquina de cinquenta toneladas, batizada com nome heroico e financiada com trinta milhões de dólares, desliza pelas águas alimentada por painéis solares, sem reclamar do salário, sem pedir hora extra, sem cantar palavra de ordem. O duelo foi organizado por dois rapazes do YouTube que descobriram, antes de qualquer parlamentar, que indignação ambiental rende mais cliques do que pornografia. E rende, sobretudo, patrocínio.

Convém perguntar, com a inocência fingida que costuma irritar os bem pensantes, quem exatamente paga essa conta. Trinta milhões de dólares não brotam de algoritmo, brotam de fundos de investimento, de marcas que precisam lavar a alma corporativa, de governos famintos por fotografia simpática e, no fim da cadeia, do consumidor que financia a propaganda embutida no preço da lata de refrigerante. O voluntário descalço na areia trabalha de graça por um ideal, o engenheiro da empreitada trabalha por contracheque, e os mecenas trabalham pelo abatimento fiscal. Cada um carrega seu balde, mas só um deles assina o cheque. E nunca é quem está suando.

Há uma falácia antiga, repetida com cara nova a cada geração, segundo a qual basta substituir o homem pela máquina para resolver os problemas que o homem criou. É o velho engano de imaginar que o aço solar não tenha vindo de uma mina explorada por trabalhador mal pago em algum continente conveniente, que a bateria não tenha custado litros de água doce de um deserto chileno, que a manutenção do bicho não dependa de uma cadeia logística movida a diesel. O ambientalismo de vitrine adora o resultado fotogênico e detesta a contabilidade completa. Mostra o rio limpo na manhã do domingo, esconde a fundição acesa na madrugada de segunda.

O detalhe mais delicioso, contudo, é o moralismo embutido na encenação. A multidão suando na praia serve como cenário, como prova de que o povo está engajado, como caução democrática para a próxima rodada de regulação ambiental que vai criar imposto novo, agência nova, multa nova, taxa nova. O robô é a parte glamourosa, mas o glamour não legisla. Quem legisla é a comoção provocada pelo voluntário cansado, e o lobby que segura a caneta do legislador raramente desce à praia. Senta no ar condicionado, redige o decreto, cobra royalty da tecnologia que ele mesmo ajudou a impor como padrão obrigatório.

Não se trata de torcer contra a limpeza dos rios, ninguém em sã consciência defende o lixo como patrimônio paisagístico. Trata se de notar que toda cruzada moral, quando passa pelo caixa, deixa um rastro de beneficiários muito específicos. As ordens religiosas medievais venderam indulgências prometendo salvação no além; hoje vendem créditos de carbono prometendo salvação no aquém, e a mecânica é exatamente a mesma. Você paga, alguém embolsa, o pecado continua, mas agora você tem um certificado de boa consciência emoldurado na parede do escritório.

Ao fim do espetáculo, o rio talvez esteja mais limpo por algumas semanas, a marca patrocinadora terá colhido seus prêmios de sustentabilidade, os voluntários voltarão para casa com queimadura de sol e a sensação reconfortante de terem feito a sua parte, e a máquina de cinquenta toneladas seguirá flutuando como monumento a uma virtude que custa caro a quem não foi consultado. O lixo, esse, continuará sendo produzido por bilhões de pessoas que precisam comer, beber e embalar a vida cotidiana, porque a civilização industrial é precisamente isso, e nenhum robô solar, por mais fotogênico que seja, vai revogar a primeira lei da economia, que é simples e impiedosa: não existe almoço grátis, nem mesmo o almoço que limpa a praia.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.